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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 26/1/2005

Um caso de polícia

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

O dia estava quente e Cleonice resolveu ir ao supermercado só de sutiã. Como acabara de dar à luz, o seu peito estava encharcado de leite. Por isso, ela vestiu seu sutiã transparente com buracos nos mamilos, para facilitar na amamentação.

Ao chegar ao supermercado, logo foi assediada por pessoas ali presentes. "Que pouca vergonha!", reclamavam uns. "Que coisa mais indecente", diziam outros.

Cleonice ficou perplexa, sem saber direito o que fazer. A principio, pensou em lhes dizer: "Calma gente, vocês não vêem que eu sou uma vaca e que nessa crônica mal escrita eu me encontro vestindo sutiã, em um supermercado e não só falando como discutindo com os fregueses?". Mas ela ficou com medo de ofender o escritor, o tal autor e resolveu esperar para ver no que isso ia dar.

Poucos minutos depois, chegou a polícia. Cleonice ficou surpresa. "Poxa, em tão pouco tempo assim?", disse ela, em voz alta. Os policiais a cercaram e logo começaram a interrogá-la. Ela exigiu um advogado, mas o tenente sorriu-lhe ironicamente e disse, por entre os dentes: "Oxente, além de vaca ela ainda é exigente. Danou-se!".

Cleonice não gostou nada disso. Mesmo ofendida, resolveu não revidar o insulto do tenente, chamando-o de pernambucano-nanico-de-meia-tigela.

"A senhora não sabe que é proibido usar esse tipo de traje, aqui dentro do supermercado?", perguntou-lhe o tenente. "Não, senhor.", respondeu ela. Quando falou isso, Cleonice balançou com a cabeça de um lado para o outro, fazendo com que o som de seu chocalho ressonasse por todo o supermercado.

Sua cauda movia-se como um chicote de treinador de circo. "Slept!", chicoteava Cleonice o ar, com seu rabo. A essa altura, as moscas, que em geral circulam nessa área, agora se encontravam em suas costas, para ver como que o autor da crônica iria terminar essa história científica, quer dizer, fictícia.

Como aquela confusão estava atrapalhando o movimento, no supermercado - e Cleonice, ainda por cima, tivera estacionado seu carro em cima da calçada -, os policiais resolveram tratar do ocorrido na delegacia, o mais longe possível da sessão de frigorífico, do supermercado.

Algumas pessoas, ainda perplexas, ficaram comentando pelos corredores do supermercado: "O que é que nós temos com essa história?", enquanto outras diziam: "Isso é coisa pra quem não tem o que fazer".

Na delegacia, Cleonice ouviu os seus direitos lidos pelo delegado e, após tomar um cafezinho sem leite, para acalmar os nervos, resolveu fazer a única ligação telefônica a qual lhe era de direito.

Em menos de 20 minutos chegou Tourino, na delegacia. Ele apresentou-se ao detetive e, a mandato do mesmo, sentou-se na sala de espera para falar com o delegado.

Ao cruzar das pernas, seus testículos saltaram para fora do calção como dois bichinhos de estimação. As pessoas ao seu redor se assustaram e mandaram vir o delegado. "Que pouca vergonha!", disse o delgado. "Só porque é um touro, o senhor acha que pode andar assim, de calção e sem cuecas?!". "Não senhor", respondeu Tourino. "Isso é coisa do autor dessa história sem fim", disse ele.

"Eu só vim aqui para buscar uma das minhas senhoras: a Cleonice", explicou ele ao delegado. "Eu não quero problema com ninguém". "Eu sou apenas o Tourino/Latino americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes/E vindo do interior...", cantava Tourino, com sua voz de barítono italiano, enquanto gesticulando como se tivera um violão às patas.

O delegado perguntou-lhe se essa música era dele, ao que Tourino respondeu: "Não, senhor. Ela é do Belchior... mas eu já comi muitas vacas da fazenda dele."

Tourino era um reprodutor que não cansava de se gabar nem de sua profissão, nem de seus casos amorosos. Em sessões de acasalamentos, muitas vacas desmaiavam ao presenciar da nudez de Tourino. Entre os mais íntimos, ele era conhecido como o John Holms (artista pornô americano) do meio animal. Ele era realmente um animal.

Totalmente musculoso, medindo vários metros de comprimento, com chifres tão longos que mais pareciam harpas angelicais, Tourino possuia uma genitália de espantar elefante. Ele era preto-azulado e considerado o Rei Zulu do mundo bovino. Não é de se estranhar o fato que ele era desejado por todas as vacas da redondeza - solteiras e casadas -, sem exceção.

Cleonice era uma das felizardas. Ela o conhecera num desses encontros casuais reprodutivos, na Internet. Mesmo após a sua inesperada gravidez, ainda assim continuaram se encontrando. Um caso raro.

Uma das coisas que deixava Tourino pronto para acasalar, era ver Cleonice vestindo aquele sutiã transparente. Ele esquecia que tudo era fruto de uma história fictícia e partia para a ignorância. Onde quer que ele estivesse.

Finalmente, o delegado entrou na sala e após confirmar os dados que Cleonésio Tourino Feitosa e Jocileide Cleonice Feitosa eram realmente casados, falou para os dois: "Temos que terminar essa crônica, já! Antes que esse mal pegue." Ao que Tourino concordou, mesmo com a atenção ainda voltada para o sutiã da parceira.

Cleonice se desculpou do ocorrido e prometeu nunca mais sair vestida daquela maneira. "Se eu encontrar com o autor dessa história sem pé nem cabeça, prometo dar-lhe-ei uma chifrada, para que nunca mais volte a escrever besteira." Disse ela, ao delegado. Ele sorriu e comentou: "Espero que a senhora não se esqueça da promessa."

Tourino e Cleonice deram as patas e ao som de seus chocalhos, saíram alegremente pela porta da cadeia. As moscas, nas costas de Cleonice, entreolharam-se e voltaram a zigzaguear por entre as caudas do casal.

À medida que os dois se afastavam, o delegado refletia sobre o ocorrido. De repente, ele se deu conta que a culpa - nessa história pra boi dormir - não era de Cleonice, mas sim do idiota do autor. "Oxente!, tá danado!!", disse ele, em voz alta.

O delegado ainda correu para o pátio, no intuito de pedir desculpas ao casal, mas eles acabavam de partir - cantando os pneus do carro -, rumo à fazenda.

"Tudo fruto de uma história mal contada", refletia agora o delegado, à proporção que o carro desaparecia no horizonte...

Tourino e Cleonice tiveram mais três bezerros: Apolo, Leonardo e Gibraltar.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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