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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/10/2003

Um caso oblíquo

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Para diminuir o número de crimes que cometia contra a gramática portuguesa, Ataulfo — construtor mineiro, morando nos EUA há 20 anos e trabalhando numa pedreira — resolveu ler uma apostila de vestibular sobre pronomes.

"Pronome", definia a apostila, "São palavras que representam os seres ou se referem a eles". "Quando um pronome age como um substantivo, é chamado de pronome substantivo".

—Tudo bem, até aí… — pensou Ataulfo.

"Existem aqueles pronomes que acompanham os substantivos a fim de determiná-los, atuando em funções características dos adjetivos", dizia a apostila. A essa altura, Ataulfo começava a coçar a cabeça. "Se chamam pronomes adjetivos", concluía o parágrafo. "Sei...", disse Ataulfo, em voz alta.

Um tanto confuso com o que acabara de descobrir (sobre os pronomes) — que não só representavam as palavras mas se misturavam com os substantivos e os adjetivos a ponto de mudarem de nome — Ataulfo decidiu que isso não o empataria de seguir com o seu aprendizado. Afinal de contas, já planejava ingressar no maravilhoso mundo da análise sintáxica.

Seus planos logo foram desfeitos quando, ao virar da página, deparou-se com, segundo ele, "Mais uma dos pronomes". "Existem seis tipos de pronomes", dizia a apostila. "Seis tipos?!", argumentou Ataulfo, agora com metade do dedo indicador dentro do nariz.

Já estava achando difícil lidar com os pronomes substantivo e adjetivo e agora teria que lidar com mais seis tipos — pessoais, possessivos, demonstrativos, relativos, indefinidos e interrogativos. Por um segundo, lembrou-se da esposa, chegando a perguntar a si mesmo: "A Jucileide tem tudo isso aí. Será que ela é um pronome também?".

Naquele momento, Ataulfo começou a notar que gramática era aquela área da literatura onde, se alguém se envolve muito com ela, vira professor. No fundo ele sabia que, professores ensinam e escritores escrevem. Teóricos ensinam e compositores compõem. Namorados namoram... e maridos também. Ele estava confuso.

Para confundir ainda mais o Ataulfo, na página seguinte apareceu-lhe outra novidade. "Lhe", dizia o texto, "É pronome pessoal do caso oblíquo." [Gluc!] Ataulfo engoliu seco. Agora com o mindinho dentro do ouvido. Acabara de ocorrer-lhe uma metástase gramatical.

"Caso Oblíquo?! Que é que é isso, minha gente?!". Falou alto, batendo com a mão na mesa e derramando o café da xícara. A última vez que ouvira a palavra "oblíquo" Gil ainda não tocava violão e Sílvio Santos era camelô.

Caso oblíquo. Ataulfo não conseguia tirar essas palavras da cabeça. Atordoado e a ponto de desistir da árdua empreitada na qual se metera, continuou com a sua leitura.

"Pronomes pessoais variam de acordo com as funções que exercem nas orações. São: pronomes do caso reto e pronomes do caso oblíquo. São do caso oblíquo aqueles que desempenham as funções de complemento verbal ou nominal...".

A essa altura do campeonato, à cada definição, Ataulfo se sentia mais próximo ao homem das cavernas (catando piolho na cabeça de um rinoceronte enquanto paquerando com uma avestruz).

Como se não bastassem as tais subdivisões, o texto ainda afirmava: "Dividem-se em átonos e tônicos, variando com a tonicidade com que são pronunciados". "Ah, sim... Seio... Seio.", afirmava Ataulfo, tentando esforçadamente captar o que estava lendo. Ele só não entendia o porquê daquela fumaça saindo-lhe pelos ouvidos se ele nem sequer fumava.

A proporção que lia, palavras ecoavam em sua cabeça como num filme de terror:

— OBLÍQUO! Oblíquo! Oblíquooo... Ah! Ah! Aahhh…

Ataulfo começara a ter miragens. Sua boca secara, sua azia se pronunciara mas ainda assim, ele não tirava os olhos da apostila. Ele estava hipnotizado e quase babando, como um cão feroz.

Como se não bastasse o fato de Ataulfo não ter entendido um dessa sinfonia gramatical, a coisa realmente fedeu quando, ao virar de mais uma página, a seguinte frase apareceu-lhe como um sinal de estrada avisando trabalhadores na pista: "Lhe", dizia a frase, "É pronome oblíquo átono da terceira pessoa do singular."

Ataulfo simplesmente não pode conter-se. "Ainda mais essa agora", disse ele, coçando o saco. Seu dia havia sido longo demais e ele ainda chutara uma caixa de sapatos contendo um tijolo, no meio da rua.

Não deu outra. Ataulfo levantou-se da cadeira, tirou o chinelo do pé direito (o do curativo no dedão) e deu uma chinelada na cabeça do cidadão, na mesa ao lado.

— Ai! Por que você me bateu?

— Porque lhe é pronome oblíquo átono...

— E o que é que eu tenho com isso?

— Não sei, mas essa sua cara de caso reto...

— Você tá louco!!! — [Slapt!] Outra chinelada.

— Au!!

— Não se meta... seu átomo ambíguo!

— Não! Pronome oblíquo átono — [Slapt!] Mais outra.

— Ui!!

— Eu seio!


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

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Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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