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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/5/2003

Heróis e passeatas... falafel e backlava

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Admiramos nossos heróis porque esses fizeram coisas que admitimos sermos incapazes de fazer. Às vezes, o que fazem até nos choca, mas os admiramos pela persistência e coragem.

Heróis, em geral, tornam-se conhecidos por uma ação específica. Mandela foi a sua política e a sua dignidade enquanto prisioneiro político, na África do Sul. Gandhi foi a sua filosofia em todos os aspectos de sua existência, enquanto Martin Luther King, Jr. foi a sua incansável luta pela igualdade social.

Outros, heróis ou não, ficaram conhecidos pela pluralidade das coisas que fizeram. Leonardo da Vinci foi um desses. Pintava, desenhava, inventava, teorizava, remediava... e ainda jogava porrinha, no final de semana.

Mesmo diferenciando dos heróis — os que arriscam a vida em prol do bem-estar social —, os ídolos, mesmo com narcisismo e egoísmo exacerbados, moldam ações populares pelo simples fato de serem celebridades.

Jim Hendrix, por exemplo, foi a sua guitarra, sua música e as suas inovações eletrônicas que o colocaram em posição de destaque. Janis Joplin, a roqueira dos anos 60, não tinha a melhor voz do mundo, levava uma vida destrutiva e morreu de overdose. No entanto, seu estilo de vida tornou-se referencial àqueles que viam nela possibilidades incapazes de realização por seres humanos normais.

No fundo, somos todos uns heróis, por mais baixo que seja o nosso ânimo. Como disse Andy Warhol [Artista Pop Americano, 1928-1987], "Todo mundo tem na vida 15 minutos de fama".

Nelson Mandela, em sua autobiografia, disse: "Há vitórias que são importantes apenas para aqueles que as conseguem". Vitória é aquela alegria exorbitante e contagiosa que impede com que fiquemos calados sobre um alvo atingido.

Chico Anísio, em um antigo quadro humorístico intitulado Baiano e os Novos Caetanos, certa vez filosofou: "Herói é o cabra que não teve tempo de correr".

Recentemente, tive uma experiência que se enquadra no dizer do Mandela e na cronométrica afirmação, do Warhol.

Após adiar, por inúmeras vezes, minha participação em passeatas (junto a mais 100 mil nova-iorquinos) contra a guerra no Iraque, resolvi me arrastar até o local: Washington Square Park.

Achei minha ação frutífera à minha consciência. Além disso, perto do Washington Square, em Manhattan, existe um restaurantezinho árabe que oferece o melhor *falafel (*Um pão árabe enxertado de alface, tomate, pepino e cebola picada, com bolinhos de grão-de-bico fritos, acobertado com creme de tahini), do planeta YORK.

Só em falar, dá água na boca. Quero deixar claro que minha tentativa de participação na passeata (que já terminara), foi movida a guerra, não a falafel. Yeap!

O Washington Square Park estava repleto de pessoas. Uns cantando, uns dançando, uns olhando etc. … e não havia outros. A cena me lembrava os filmes Hair e Woodstock. Uma cena nada fictícia. Na realidade, quase um dejavú.

Eventualmente fui empurrado até o meio da multidão. Me vi cercado por apitos, batuques, gritos e frases vocalizadas pela multidão contra a guerra, George e a polícia (que rondava o ambiente).

À frente disso tudo, um líder — recém-chegado dos anos 70 —, com um fone daqueles, tipo comício-de-PT, liderando o coro.

O povo gritava, enquanto eu me comportava como um papagaio choco; bocejando a cada 2 minutos. Confesso não ser chegado a barulho nem a multidões. Acho carnaval um horror. Esfregação pra mim, só na cama (e depois de um banho), ou num forró pé-de-serra (também depois de um banho). Caso envolva a Gisele, o banho é secundário.

No mais, a encoxação por gladiadores com lanternões no bolso, não me é nada excitante. Uma questão de gosto, creio.

Após vários minutos de zoada ambiental, comecei a pensar no Gandhi e na sua tática de desobediência civil usando a não-violência. Imaginei todos ali em silêncio. Quietos. Achei que o efeito seria mais orgânico do que o barulho. Mas, quem sou eu para fazer uma multidão de revoltados — com a guerra, o George, os cabelos etc. — ficar em silêncio?

De tanto pensar nisso, não consegui ficar calado e mencionei a idéia a uma linda jovem (de cabeça raspada) que se encontrava ao meu lado. Ela me olhou surpresa — deve ter me achado parecido com o Brad Pitt ou aquele outro … o Pit Bull. Isso sempre acontece — e disse concordar com a minha idéia.

Falei-lhe que, dada a sua doçura, ela seria a pessoa ideal para levar o plano adiante. Não deu outra. Em poucos minutos ela e seu namorado — é sempre assim, mulheres bonitas e inteligentes estão sempre com bundões feios e barrigudos, a tiracolo —, saíram em direção ao líder dos insultos.

Os perdi de vista e até esqueci do plano, dada a repentina chegada de uma loira (burra ou não, não me interessa) trajando uma calça apertadíssima e colorida com os seguintes dizeres, em letras garrafais, na bunda: "Axis of Evil, my ass!" [Trad. aproximada: "Eixo diabólico, o cacete"].

Frase baseada no discurso do George ao povo americano, quando o mesmo proclamou a Coréa do Norte, o Iran e o Iraque como "eixos diabólicos", após os atentados de 11 de setembro. Frase essa que vai lhe perseguir pelo o resto da vida.

Dado o local físico-geográfico onde a frase se encontrava, transcendi seu significado político e passei a apreciar a bunda. Por que não? ‘Chega de guerra’, pensei. Se todos os homens, no mundo, estivessem fazendo o mesmo que eu, certamente ninguém estaria brigando.

"...São dez horas, o samba tá quente/Deixe a morena contente/Deixe a menina sambar em paz/ Por trás de um homem triste/Há sempre uma mulher feliz/E atrás dessa mulher/Mil homens, sempre tão gentis..."

No meio dessa introspecção filósofo-carnal (com uma pitada de Chico Buarque), ouvi o tal locutor pedir a todos para que ficassem em silêncio. Não pude acreditar no que ouvia.

Em questão de segundos, o silêncio reinou. Quase gritei: ‘Valeu, galera!’. Mas, com medo de ser apedrejado ali mesmo — como uma mulher flagra em adultério, nos tempos bíblicos —, em silêncio fiquei, juntamente com todos. Até esqueci a bunda dagalega.

Mais tarde, quando o barulho ressurgiu, aproveitei a emoção para comentar, com algumas pessoas, sobre o ocorrido. ’É possível mudar as coisas’, falei para elas. Eu havia mudado aquela situação por alguns minutos e o melhor, ninguém imaginava que fora eu, o responsável pela ação.

Mais tarde, enquanto comia um falafel, a frase do Mandela ecoava na minha cabeça: "Há vitórias que são importantes apenas para aqueles que as conseguem".

Após um falafel e um backlava — um doce que, de tão doce, até as moscas franzem a testa —, com as mãos pegajosas (pela falta de banheiro no recinto), entrei no metrô rumo a um recital, na Juilliard School, com músicas de compositores árabes. Durante o recital, a frase na bunda da loira, veio à mente: "Axis of Evil, my ass!"

Dei com os ombros, lambi os dedos e … aplaudi a música.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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