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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/4/2003

Um bom samaritano ou ... um São mauritano?!

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Guerra, até algumas semanas atrás, era coisa de cinema, de anos 60 e de livros de história.

Mesmo acostumados com a bruta realidade de paises como Israel, Palestina e alguns paises africanos, onde as lutas armadas são uma constante, as guerras terminam sendo vistas, no lado de cá do horizonte — dada a freqüência com que são mostradas na televisão —, mais como revoluções e protestos civis do que como batalhas sangüinárias e aterrorizantes.

Nesse momento, em que os EUA bombardeiam o Iraque como quem tira a poeira de um tapete com um porrete, todas as possíveis e impossíveis diferenças éticas, estéticas e biológicas existentes na raça humana vêm à tona.

Quem, antes da guerra, não tinha nenhuma razão definida para gostar ou desgostar da America, do Iraque, do George ou do Saddam, agora tem um prato cheio.

Uma coisa é garantida, com a guerra: o ódio. O pior é que todos terminamos, querendo ou não, com alguma culpa no cartório pela simples razão de sermos: judeus, ateus, fariseus, árabes, israelenses, cearenses ... ou zebedeus. A guerra certamente incita a vingança enrustida no âmago do coração.

Apesar da falsa realidade que a televisão promove, quer seja na área da (in)segurança ou no racismo-semitismo-ideologismo-fanatismo exacerbado dos falsos profetas; vez por outra, uma surpresa acontece lembrando-nos que somos, no fundo, um bando de animais diferindo dos irracionais apenas no uso do papel higiênico. E olhe lá!

Outro dia na televisão, um jornalista entrevistou (e honrou) um cidadão, por este ter cumprido com o seu dever cívico.

Segundo a estória narrada, o entrevistado bípede trabalhava como caixa em um posto de gasolina, no Brooklyn. Repentinamente, um maníaco, que é o que não falta nesse país — made in New York —, encheu um balde com gasolina, correu para o outro lado da avenida — onde havia uma igreja — e jogou a gasolina nas paredes daquela igreja.

Retornando ao posto, seu intuito era pegar mais gasolina e seu plano: incendiar a igreja.

O honrado cidadão — o caixa do posto de gasolina —, reconhecendo o alto teor de loucura do maluco, telefonou imediatamente para a polícia e relatou o ocorrido, no ato da circuncisão.

A polícia, como sempre acontece, chegou em poucos minutos pronta para testar seus cassetetes, na cabeça do débil mental. Felizmente, chegaram a tempo de evitar que ele tocasse fogo na igreja. Prenderam-no e tudo voltou ao normal.

O leitor há de perguntar o porquê da "honra" e da condecoração, só porque o rapaz do posto de gasolina ligou para a polícia e relatou o ocorrido.

É fácil imaginar que qualquer cidadão, em seu mais normal estado de espírito e a par das suas funções cívicas, teria feito o mesmo. "Sim, mas sim, mas não, nem isso..." (Caetano). [Não sei o que essa frase significa, mas a coloquei aqui de qualquer maneira].

Essa estória perde a sua função samaurítica-samarítica-samuraica-empírica, sociológica e cívica... se alguns dos dados — pertinentes às suas personagens —, forem excluídos do texto.

O rapaz — o caixa do posto de gasolina —, o tal bípede "salvador da pátria", era um árabe (de sangue, de cara, de nome e de sotaque). Ele só não era mais árabe porque o dia só tem 24 horas. Turbante e os cambau…

O maluco da parada — o tal debilóide que queria tocar fogo no templo —, era um judeu, do Brooklyn (de sangue, de cara, de nome e de sotaque).

A igreja — no outro lado da avenida e salva das labaredas do mal —, não era uma igreja católica apostólica romana, dessas que o Texas está repleto. Tratava—se de uma sinagoga.

Numa época onde judeus (israelenses) e árabes (israelenses) não conseguem se bicar — segundo ditado popular: "dois bicudos não se beijam" — e os planos de paz formulados por aqueles que moram em países onde não há guerra, aparentam ser tão impossíveis — como querer saciar um tucano servindo-lhe água num prato raso —, em Brooklyn, um simples árabe de religião muçulmana, salvou uma sinagoga de ser incendiada por um judeu. Go figure!

O árabe, foi propriamente condecorado e reconhecido pelos rabinos da sinagoga e os moradores do bairro, no Brooklyn. Saiu até na televisão. Enquanto o judeu, sifo.

Na contra-capa do disco "Quanta", do Gil, encontram—se os seguintes dizeres, de Lao Tse:

"Every one recognizes good as good: there’s the evil. Every one recognizes beauty as beauty: there’s the ugliness". (Trad. aproximada: "Todos reconhecem o bem como bem: eis aí o mal. Todos reconhecem o belo como belo: eis aí o feio.").

A verdade é que a morte é a única coisa garantida. No mais, muito trabalho e um pouco de sorte. Não deveria ser isso o bastante para que respeitássemos a vida?


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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