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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 26/11/2004

Cadeira de praia

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Me sento numa cadeira de praia - na praia do Futuro, em Fortaleza -, e espero curtir aquela solidão caseira sem a perturbação de ninguém ao meu redor. Interrupção só se for do vento, do sol, do mar, das aves... ou do garçom. No mais, quero sossego completo. Mas não, nada disso acontece.

Mal sento e - em questão de segundos - chega uma mocinha vendendo sanduíches e me perguntando se eu quero um sanduíche natural de atum (daqueles com o odor peculiar de sanduíche de praia. Um odor naturalmente forte).

Pergunto para ela - em forma de resposta -, quando foi que mataram o atum. Ela finge não me ouvir, ignorando completamente a minha pergunta. Eu, por outro lado, ignoro seu silêncio, o odor e o assassinato do atum.

Em seguida, duas meninas, ou melhor, duas crianças que aparentam ter nascido há poucas horas, surgem não sei de onde e param na minha frente. Elas são raquíticas e possuem cabelos ao vento queimados por aquele intenso sol praieiro. Cada uma delas segura dois bastões de queijo coalho, em cada mão, para serem assados na brasa na presença dos fregueses.

Enquanto uma delas conversa comigo, tentando me persuadir a comprar o queijo, a outra pede para tomar o resto de coca-cola deixado na garrafa do cidadão, na mesa ao lado. Uma mistura de negociação de venda com doação forçada de renda. O cidadão dá o resto de sua coca-cola para a menina mas não compra o queijo.

Outros vendedores se aproximam paulatinamente me perguntando se eu não quero comprar ovo de codorna, amendoim torrado, castanha de caju, sanduíches naturais, brincos, pulseiras, camisas, cigarro, chapéus, bolsas, redes, óleos... e o diabo a quatro.

Na verdade, tudo o que eu quero no momento é olhar o mar, o horizonte por sobre o mar, o céu azul... e essa mulherada maravilhosa entrando e saindo na água, sem ser assediado por esses vendedores praieiros que, com todo o respeito, me enchem o saco e cortam aquele momento poético carnal que esse cheiro de óleo de bronzear (no ar) promove.

Apesar disso tudo, o sol brilha como nunca. Brilha com aquele tipo de brilho encontrado somente no sol do nordeste, um sol de sertão... como um luar de sertão... "Não há ó gente ó não..."

O dia está perfeito, sim. Mar azul. Céu anil. Emocionante. Primaveril.

Ninguém imagina (nem se importa) que eu - sentado nessa cadeira capenga, de madeira - more na famosa cidade do mau-humor, onde esse tipo de beleza praieirística não existe. Existe ópera, sim. Existe cinema, sim. Existe tecnologia, sim. Existem intelectuais e diretores de cinema como Charlie Rose, Woody Allen, Spike Lee... e um bocado de mulheres brancas mal-amadas e mal-comidas, também. Sem falar nos homens que, a última vez que transaram, camisinhas (de Vênus) ainda estavam sendo testadas em chimpanzés.

Agora que eu me encontro desgarrado em frente a um mar de verdade, com cheiro de verdade, com sol de verdade, com sal e tesão de verdade (que é o que falta no mares dos EUA) lá vem alguém me perguntar se eu quero comprar uma cadeira de palha ou algo do tipo. Só se for para amarrar o vendedor nela e enfiar-lhe uma macaxeira goela abaixo. Pensando bem, sim, quero. E uma macaxeira também... e uma corda grande. "Grande, bem muito", como diria a meninada do interior.

Mas, como falava antes, apesar dos pesares o mar continua lindo, o sol continua lindo, a mocinha na mesa acolá não é das mais atraentes mas a sua amiguinha, com certeza, uma gostosa e... no meio dessa perfeição divina, dessa revelação nirvanial e apoteótica ouço mais uma vozinha gasguita agora acompanhada de um forte cheiro no ar:

"Tapioca, senhor?"


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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