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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/12/2002

Feliz o quê?

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Dezembro é o mês que, com o passar dos anos, cada vez chega mais rápido que no ano anterior. Pelo menos é essa a impressão que dá. Somos sempre pegos de surpresa e por isso a correria às lojas e à compra frenética de presentes. Por outro lado, qual foi o ano em que essa correria maluca não ocorreu?

Até no dia do nascimento, ou melhor, prestes ao nascimento de Jesus (o responsável por esta data, mesmos que muitos pensem que seja Noel) os hotéis, pousadas e Casa do Estudante da época, encontravam-se todos lotados. O American Express que José carregava na sacola do jumento, não abriu porta alguma. Quem sabe um Visa tivesse mudado o curso da história.

Talvez porque o carnaval se aproximava e o dólar estava em alta - não se sabe ao certo -, José e Maria (mãe de Jesus) tiveram que passar a noite numa estrebaria arrodiados de animais e de alguns nordestinos que estavam à caminho de São Paulo. Como berço não havia, Jesus foi posto em uma manjedoura (local onde se coloca a ração dos animais).

Dizem que os bichos não gostaram nada disso (principalmente Cleonice, a galinha chocadeira), mas quando é que algum bicho - na história dos direitos dos bichos - teve direito a alguma coisa? Isso só aconteceu na época do dilúvio, dentro da arca de Noé.

De volta a correria no Natal, talvez seja essa a única data anual a qual não importa onde que seja a guerra, ela é sempre lembrada, ainda que incorretamente. Mesmo havendo para toda regra uma exceção, o Natal é a exceção da própria exceção, ou seja, não há exceção. Como dizem os britânicos: "No way, José!". Natal é Natal e pode ir passando esse peru pra cá.

Existem tantas datas as quais esquecemos sem o menor constrangimento como aniversários (de parentes), datas cívicas e históricas, datas de trocar o lençol da cama... Mas o Natal não tem como. Ainda assim, existem aquelas personagens iluminadas que conseguem esquecê-lo e que acham que a música Jingle Bell é a mais nova composição da Xuxa.

- Que dia é hoje?

- Domingo.

- Tem certeza? Eu jurava que era dezembro...

- É dezembro e é domingo.

- Eu sei, mas... quando que é o Natal?

- Como é que é?

- O natal. Quando que é mesmo?

- Já foi.

- Como assim?

- Já passou. Foi a semana passada.

- E que festa é essa que estamos indo? Espera. Não diga. É o aniversário de casamento do Horacio e da Olga!

- Não, senhor. É o réveillon, seu bocó. O Horacio é solteiro e essa Olga aí não existe, pelo menos na vida do Horacio. Quem é essa cachorra?

- Calma Ivete, deixa a moça em paz.

- Que moça?! Essa sem-vergonha?

- Esquece. Faz uma gemada pro pai, como manda o Virgulino. Acho que tá na hora do Lampião entrar em cena.

- Se eu encontrar alguma marquinha de batom na sua roupa, quem vai virar Maria Bonita sou eu. Seu cafajeste!

- Que é isso, amor? Olha, bota um runzinho na gemada do pai, vai. Você sabe onde está o meu chapéu de cangaceiro?

- Sei sim.

- Onde?

- Tá na casa da Ooolga, aquela vagabunda.

- Que é isso, amor? Fica calma. A gemada tá começando a fazer efeito... Cadê a minha peixeira e... a metralhadora do Marcelinho?

Toda desculpa, por mais esfarrapada que seja, é de certa forma aceita debaixo do sol, exceto: "Querida, não comprei seu presente porque esqueci que era Natal." Uma desculpa absolutamente incabível.

- Você acredita isso, Ana Clarice? Esqueci totalmente do Natal.

- Claro que não, Tavares. Você é um mentiroso.

- Mas é verdade, bem. Esqueci completamente.

- Você só não esqueceu de checar se o décimo terceiro já havia sido depositado na sua conta, não? Me poupe, Tavares.

- Mas meu amor, eu...

Se você planeja usar esse meio de comunicação é melhor investir criatividade e uma excelente encenação teatral na parada. Não diga que esqueceu do Natal, isso é muito furado. Está na cara que é mentira.

Diga que não comprou o presente porque a única loja que tinha o tal presente pegou fogo exatamente na hora em que você estava dentro dela (comprando o presente) e por causa disso você perdeu todos os seus cartões de crédito, todos os cheques, o carro novo que estava estacionado na frente da loja, o sutiã da nova secretária no porta-luvas, a vergonha... e o que mais vier à mente.

Lembre-se que a mentira tem que ser pra lá da de Bill Clinton negando o caso Monica Lewinski e do senador republicano Trent Lott negando que é racista. Se você conseguir bater esses caras, considere-se um gênio.

Não seja econômico com a história, com a criatividade e nem com as palavras. Vá além da imaginação e diga que você não acreditava em coincidências até chegar em casa e encontrar seu apartamento também em chamas - após o tal incêndio da loja -, conseguindo salvar apenas as mentiras e os números de telefones das amiguinhas do trabalho. Depois disso morda a língua para ver se escorre uma lágrima pelo canto do olho (de preferência de ambos) só para validar a brilhante encenação teatral que você acaba de dar. Se uma lágrima rolar, você realmente merece um Oscar. Sorria!

Essa representação toda intimidará as pessoas de lhe perguntarem se mente assim desde criança ou se tudo é apenas fruto da sua esquizofrenia aguda por ter parado com o Prozac.

Para evitar conversa fiada, ao terminar sua história, corra para a mesa mais próxima e encha a boca de peru, bolo, salpicão, farofa, ameixa, arroz com passas... e o diabo-a-quatro.

Fique assim a noite inteira e deixe o resto por conta do Papai Noel que há anos finge que existe e ninguém ousa perguntar-lhe sobre os seis veadinhos que puxam sua carruagem (sem falar nos duendes).

Conselho de amigo: próximo ano compre os presentes de natal em janeiro, guarde-os bem guardados e torça para que suas mentiras jamais se tornem realidade. Assim sendo, você jamais terá de concorrer com um Robert De Niro ao Oscar de melhor ator do ano. Não que a experiência não seja válida.

Marlon Brando começou sua brilhante carreira assim, esquecendo-se que era Natal e tendo que inventar uma história para a esposa...

No mais, feliz Natal nesse carnaval!


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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