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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/11/2002

Nova York: a megastore, a megalópole... e Teobáldo

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Sentado no café da Megastore Virgin, em Manhattan — com um copo de papelão na mão e tomando um café tão fraco que preciso ameaçá-lo de morte para que saia do copo —, reflito sobre a grandeza dessa metrópole. Não no seu tamanho geográfico, mas na sua ambigüidade cultural.

Não é só em Itú que tudo é grande. Os texanos também afirmam que no Texas tudo é, se não o maior do mundo, o maior dos EUA (incluindo a idiotice do Bush).

Em se tratando de tamanho, Manhattan não é tão grande assim. A grandeza dessa ilha não está no seu tamanho geográfico mas na sua amplitude de oportunidades.

O aglomerado de maluquices faz dessa megalópole a maior do mundo, não pelo tamanho mas pela diversidade de raças, crenças e criaturas mal-humoradas. Existe aqui o maior número de loucos (por metro quadrado) do universo. Em geral, circulam sob o pseudônimo clínico de artista, filósofo, executivo, analista...

Devido ao fluxo de lunáticos que aterrissam (e aterrorizam) em Manhattan constantemente, ela aparenta ser maior do que realmente é. Pura ilusão. Não fosse o trânsito nas ruas, me levaria aproximadamente uma hora — de bicicleta — para atravessá-la de norte a sul.

Nova York acomoda mais judeus que Israel — a suposta terra dos... árabes, armênios, americanos, mexicanos, muçulmanos, paraibanos, alagoanos e... judeus.

Creio que em Nova York existe mais brasileiros do que em Itú. Porém, o que tem mesmo aqui é maluco. Cada qual com sua doidice peculiar. Uns, por sinal, não mordem.

Um dos problema de Manhattan é que o mundo inteiro gostaria de morar aqui. Não em Queens. Não no Brooklyn. E pra lá com esse papo de "moro a dez minutos de Manhattan", como todos que moram em Queens e Brooklyn afirmam. Morar dentro de Manhattan e fora de Manhattan são duas coisas completamente diferentes. Os que moram fora acham que não.

A Megastore Virgin possui três andares repletos de turistas, CDs, livros, vídeos, alguns humanos, uma lanchonete e cinemas. Como não podia faltar, possui também alguns moleques como esse que acaba de sentar na mesa, ao lado da minha. Mal sentou-se, já começou a chorar e a brigar com o pai.

O esgoelar de sua garganta mais seu movimento corporal, denotam que ele quer subir na escada rolante que desce. Que gracinha! A loja inteira pode ouvir seus gritos ecoando pelos três andares.

Penso em atirar um sapato em seu pai, mas o moleque se acalmou e o pai levou-o embora. Na realidade não é culpa do menino se ele se parece com o Cebolinha (de óculos) e tem os cabelos cortados à la cacique-do-alto-Xingu. Mas que é um chato, é!

Por outro lado, um pai que tem um filho danado assim, acredito não ver a hora do pentelho completar... dez anos, para ir à luta. Trabalhar. Casar. Sair de casa e só voltar aos domingos para receber a mesada (depois do almoço).

É impressionante o fluxo de gente dentro dessa loja. Sua localização, no centro de Manhattan e no meio da Times Square, explica o fenômeno.

A Times Square, na passagem de ano novo, reune cerca de cinco milhões de devotos que, ao findar da contagem regressiva (enquanto uma bola iluminada desce lentamente de um aranha-céu) gritam, em uníssono:

— Ai!
— Ui!
— Pisaram no meu pé!
—Cadê minha carteira?!
— Socorro!
— Polícia!
— Joãozinho!
— Cadê a bola, já desceu?
— Que bola?
— Feliz ano novo!
— O quê?
— Feliz Ano...
— Subiu de novo?

Desses cinco milhões provavelmente uns... cinco milhões são turistas. Sem contar policiais, agentes secretos, vendedores de cachorro-quente, de camisetas I Love NY, relógios falsos, greencards, passaportes... e pretzels (um bolachão duro e fedorento com sal grosso e mostarda).

O bom novaiorquino, na noite de Ano Novo, se veste de preto (como faz o ano inteiro) e vai (com bebida em punho) para o apartamento de algum amigo — que também se veste de preto — esperar o... servir da comida.

O ser humano, em geral, é interessante de se olhar. Não pára de comprar. Mesmo chato, falando alto e na maioria das vezes politicamente incorreto, chega quase a se igualar ao turista. Esse é ainda mais interessante. Além de possuir todos os sintomas de um ser humano, possui também uma câmera fotográfica e um celular (o que diferencia uma espécie da outra).

Os entendidos no assunto acreditam que essa espécie — conhecida cientificamente como turista —, tenha sido fruto de uma clonagem mal feita que ao invés de resultar na Dolly (atual esposa do cientista que a criou), resultou em um japonês de óculos e com uma Polaroid na mão. Um caso inédito!

Infelizmente esse tipo proliferou-se mundialmente e com tal rapidez que hoje em dia não se sabe onde a versão original foi parar. Eles são portadores de uma gene que atua na zona cerebral fazendo-os comprar tudo o que apareça em suas frentes. Compram como se não existisse sexo nem sorvete de cajá.

Turistas são seres inteligentíssimos que sabem como dizer "Qual o preço disso?", ou "Onde fica o banheiro?" em dez idiomas diferentes, incluindo braille, sinais com as mãos, com tambores e com fumaça.

Apesar do ar desorganizado e esgotado que apresentam, eles são altamente astutos para descobrir promoções de almoço e happy hour de barzinho irlandês. Além disso, sabem exatamente quando devem parar de comprar. Normalmente o fazem quando a alça da sacola quebra ou o excesso de peso arranca um dos braços. Do contrário, seguem comprando.

No International Turist Manual (ITM) encontram-se as seguintes regras de comportamento, entre outras:

1. Nunca voltar à mesma loja por mais de cem vezes consecutivas.
2. Falar alto em recintos fechados tipo elevadores, igrejas, teatros...
3. Usar inglês de cacique ("Mi uant isso [apontando com o dedo]. Ráumátchê?").
4. Pisar os pés de todos ao seu redor sem se desculpar.
5. Armar um barraco por qualquer bobagem.
6. Furar filas de qualquer tipo.

Como para toda regra existe uma exceção, a exceção aqui se chama Teobáldo Laranjeiras. Figura raríssima no meio animal que sobreviveu à extinção de sua raça. É casado, tem família, adora dormir depois do almoço, é amicíssimo do padeiro e — dizem as más línguas — é feliz.

Teobáldo representa o extinto tipo de turista que não tem a menor vontade de viajar. Mas viaja. Está no sangue. A única coisa que lhe interessa conhecer — quando viaja — é o quarto do hotel onde se hospeda. Não vê a hora de entrar no quarto para tomar um banho e usar todas as toalhas de uma só vez — sabendo que receberá toalhas limpas na manhã seguinte. Quando sai do hotel, só não leva a cama porque é pregada no chão. O resto, vai tudo como souvenir (incluindo as toalhas).

Como nem tudo é perfeito, Téo (para a família, os amigos e Criolíno, seu papagaio) possui um grande problema: detesta viajar. Ele é apaixonado pela família, Criolíno e Cibalena, sua cadela prenha. Quando viaja chega ao aeroporto soluçando, como se estivesse sendo deportado do país. Passa o vôo inteiro agarrado ao travesseiro da aeronave, perguntando a aeromoça a cada meia-hora, "Quantos minutos ainda faltam para chegar ao local de destino?".

Mal entra no quarto do hotel, liga para casa para ter notícias da Cibalena. Teme que, nos quatro dias que permanecerá no hotel, sua esposa esqueça seu nome e pior ainda: Cibalena esqueça sua fisionomia.

Teobáldo, ao contrário de outros turistas, não sai do hotel. Não sai nem do quarto. Adora assistir TV na cama, ler panfletos turísticos deixados no quarto e o jornal grátis (cortesia do hotel). Só duas coisas o fazem sair do quarto: a camareira mal-humorada e as refeições.

Na hora do almoço — 11:30h em ponto — ele coloca o chapéu, o tênis branco, a calça jeans nova (estilo o-defunto-era-maior), um casaco azul-anil por cima da camisa branca escrita no peito (em verde e amarelo) "Sou mais Brasil!", perfume-de-fazer-hiena-franzir-a-testa, óculos escuros, carteira de identidade, título de eleitor, CPF, passaporte... e desce para o restaurante (brasileiro), ao lado do hotel.

Seu prato favorito o garçom já conhece: Feijoada. Para beber: Guaraná Antarctica, sem gelo ("gelo é pra gringo", diz ele). De sobremesa: doce de leite com fatias de queijo, um cafezinho, um palito... e volta correndo para o hotel para ver um filme do James Bond, na TV, no Especial da tarde.

Às cinco da tarde acorda (pois dorme o filme inteiro) e repete o mesmo ritual para o jantar. O que muda agora é o cardápio. Dessa vez um Big Mac (com batatas fritas e coca-cola), no Mc Donald’s, na frente do hotel. Ao findar a refeição, bate uma foto ao lado da mocinha do caixa e volta para o hotel. Cansado. "Foi um dia puxado", diz ele para a esposa no telefone, antes de dormir, por volta das 22:00h.

Téo não compra absolutamente nada a não ser café (para fazer no quarto) e um vidro de leite-de-magnésia (para rebater as feijoadas). Além de não comprar nada ainda vende seu relógio Citizen para o porteiro do hotel — um brasileiro com 30 anos de América (e de portaria).

Dois dias mais tarde, liga para casa e para o desespero da família anuncia: "Voltarei amanhã!".

No dia da volta, Téo sai do hotel, às 11:00h, direto para o aeroporto pois teme perder o vôo às 21:00h. Ele está feliz. Não vê a hora de chegar em casa e ouvir as novidades das novelas da Globo. Por outro lado, apesar de turista nato, sempre retorna completo. Apenas um pouco cansado e abatido. Afinal de contas, foram quase quatro dias longe de casa.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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