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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/8/2002

A mocinha calorenta e seu traje de inverno

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Era domingo. O dia estava lindo e as lojas na avenida Broadway abertas e lotadas de pessoas, como sempre, comprando. Os espelhados aranha-céus refletiam os raios de sol, que aumentavam ainda mais o clarão do momento. Era um clarão nordestino, daqueles de sertão pernambucano - que ocorre poucas vezes ao ano, em Nova York.

Todos na rua estavam encapotados... com casacos e outros apetrechos para frio, tentando combater o vento que também saíra às ruas para ventar. Afinal de contas, esse é o país da democracia. Até o vento faz o que quer... e quando quer.

Sentada ao meu lado dentro do ônibus M104 que circula na avenida Broadway, uma jovem de aproximadamente 20 anos de idade, magra e franzina, devendo pesar não mais que um cabrito, vestia uma roupa de verão: calção de corrida, de náilon; camiseta fina, de algodão; jaqueta azul de náilon, por sobre a camiseta; tênis e, na mão direita, um par de luvas cor-de-rosa, de lycra.

Em um dia de verão novaiorquino, desses de meio de agosto, ela não vestiria aquilo dentro do ônibus, pois não aguentaria o ar-condicionado. Por outro lado, talvez o frio do ar-condicionado no verão não seja tão frio quanto o frio do inverno, especialmente nesse domingo.

Ao seu lado, todo empacotado com casaco de frio, meias de algodão, cueca de algodão, botas de couro, chapéu, cachecol, copo com chá quente na mão - como se estivesse indo para o Pólo Sul pescar e com um belo de um mau-humor, devido ao frio - , sentava eu.

Olhei para ela duas vezes seguidas, como em uma cena de filme do Charlie Chaplin. Minto, devo ter-lhe olhado umas cinco vezes - mais três de canto de olho - para ter certeza de que o que eu presenciava naquele momento não era engano.

Tratava-se de uma jovem de aproximadamente vinte anos de idade que estava semi-nua... em um dia de inverno novaiorquino. Não entendi nada. Olhei para as pessoas ao meu redor e elas, como todo novaiorquino que se preza: estavam minding their own business (trad.: na delas).

Comecei a procurar razões para tal comportamento. Talvez eu estivesse doente e acordara com febre, sem perceber que estava doente e com febre. Mas se era isso... e os outros passageiros? Será que o mesmo lhes ocorrera? Todos, no ônibus, estávamos febris e por isso agasalhados até o cangote — exceto ela, a jovem princesa.

Então tratava-se de uma epidemia. Isso mesmo. Porém, só atacara a nós que estávamos agasalhados. Menos a ela. Ela deveria estar se sentindo muito bem e quem sabe até com calor, pois ao descer do ônibus caminhou normalmente pela rua como se estivesse realmente curtindo a temperatura.

Voltei a pensar na epidemia. Não podia ser febre... pois chequei o serviço de meteorologia antes do meu banho matutino e bem antes de martelar meu despertador. Por que então que ela se vestia daquele jeito?

Enquanto não cheguei em casa e tomei dois Tylenol para "febre", refleti nas seguintes hipóteses:

1. Talvez ela se esquecera de lavar roupa nas últimas seis semanas e agora — após colocar tudo na máquina de lavar —, só lhe sobrara aquilo que vestia.

2. Talvez era sonâmbula e se encontrava em meio a um sonho de verão no qual caminhava para o parque.

3. Acabara de chegar de Canoa Quebrada e seu corpo ainda exalava o calor do mar.

Nenhuma das hipóteses fez sentido. Chamá-la de louca não explicaria a questão pois loucos, nessa cidade, fazem loucuras agasalhados. Alguns por sinal, até lêem jornais, livros... e perguntam pelas horas, como se estivessem atrasados para alguma reunião de... condomínio de ponte.

Os prédios continuaram ensolarados até por volta das quatro horas da tarde, quando o dia se acabou. Tudo ficou escuro. Virou noite. E frio que estava assim ficou.

O episódio da mocinha "calorenta" continuou na minha mente.

Talvez a verei novamente em alguma parada de ônibus, em Manhattan. Afinal de contas, o mundo é pequeno e Nova York, sua capital. Mas se eu encontrar com ela no verão vestindo roupa de frio, aí não. Vamos ter uma conversa muito séria.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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