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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 25/7/2002

O casal na mesa ao lado

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Vim hoje ao meu coffeehouse favorito para ler o livro "A fantástica história de Sílvio Santos", de Arlindo Silva. Não vim com intenção alguma de escrever. Porém, às vezes situações ocorrem e é difícil ignorar a inspiração sem querer registrá-la. Se deixo, logo esqueço. Se penso, logo desisto.

Quando o dia está bonito mas frio, não dá outra; esse coffeehouse fica insuportável. As mesas (para dois) ficam a duas polegadas umas das outras. Para quem vem aqui só para consumir doces e cafeína, tudo bem, mas para quem vem diariamente - para ler, escrever, compor, pensar... -, qualquer toque de pele (indesejável) é considerado invasão de privacidade. Assédio sexual. Um caso de polícia. "Chamem o ladrão!"

Como já disse, vim aqui hoje no intuito de ler meu livro. Só isso. Sem muito papo furado nem muito forrobodó. Porém, me sentei ao lado de um casal o qual o gargalhar da mulher, a cada bobagem que ela fala, me faz perder a concentração.

No momento, tenho duas opções: 1. Na próxima risada alta que ela der, meter-lhe-ei o açucareiro goela abaixo... e calmamente retornarei à minha leitura; 2. Tirarei meu sapato de inverno e dar-lhe-ei três palmadas em cada mão... explicando-lhe que essa alergia passa logo... e [glut!] outro gole de café e uma assoada de nariz - estilo solo de trombone - para camuflar o ocorrido.

Enquanto procuro uma maneira sutil para contornar a situação, ela não para nem de falar nem de rir (alto). Sem querer, me pego fazendo o que detesto quando fazem comigo: ouvindo a conversa alheia e, como se não bastasse, participando - mentalmente - da mesma.

A certa altura, ela revela para o seu amigo que está com quarenta anos de idade (mesmo aparentando o dobro). Ela diz que acaba de divorciar-se e que agora está disponível. Tudo bem até aí. O único problema é que ela não consegue calar a boca.

Não conseguindo calar-se por mais de três segundos consecutivos, ela começa a listar as coisas que exigirá dos futuros parceiros. E põe-se a falar (e a gargalhar). "Quanta alegria desperdiçada", imagino no auge da minha pertubação mental.

Entre uma risadinha e outra, ela revela que o próximo parceiro terá que ser alto (ela é baixa), inteligente, financeiramente estável (aos 40 anos idade diz ela ter casa, carro, um bom emprego...) Por outro lado, em se tratando de graça e charme: zero no quociente.

Não podendo calar por aí, ela diz em voz altíssima: "Eu sou uma comodidade para qualquer homem."

Vejamos. 40 anos. Graceless. Charmless. Óculos de editor de enciclopédia. Comodidade? Só se for um seguro de vida para o parceiro por ele ter aguentado essa risada irritante por horas consecutivas. Que tal incluir nesse pacote um cartão sorteado com a Sena acumulada de três semanas? Isso seria cômodo.

A essa altura, começo a gritar com ela, mentalmente: "Tudo que eu gostaria de estar fazendo nesse exato momento é lendo o meu livro, não decifrando o que é ou não é comodidade!!!", digo telepaticamente, contorcendo meu rosto e quase que entortando a colher de metal, dentro da xícara.

Nos poucos e involuntários minutos que passei na mesa ao lado da sua, já imaginei o marido correndo atrás dela — com um facão cego — pelo menos umas quinhentas vezes. Imaginem dez anos de vida conjugal. "Há, há, há, há! Eu sou uma comodidade..." Yeah, right!!!

Acho que todos têm o direito de expressar o que sentem, só que em voz baixa. Para uns, o sussurro ainda é a melhor pedida.

Dada tamanha distração, não consegui ler coisa alguma do livro e ainda escrevi uma péssima crônica (se é que se pode chamar isso de crônica).

Eventualmente, o tal casal saiu do recinto. Ela gargalhando e ele... (não importa).

Passados uns três minutos, outro casal se senta à mesa ao lado. São educados, atléticos (ele veste uma roupa de ciclista) e super-reservados. Aquela reserva encontrada nas pessoas cultas. Seus diálogos são resumidos: "Sim!". "Não!". "Talvez...".

A essa altura, o silêncio do casal me incomoda, já que agora estou em ponto de guerra. Quero mesmo é ouvir conversa por pura curiosidade, ou como diria um amigo: "Só de sacanagem." Porém, só consigo escutá-la perguntando algo indecifrável... Ele, entretido com o seu jornal, a ignora como eu ignoro suco de caju. Ela, no entanto, não desiste. Continua perguntando... e sendo ignorada, como se conversasse com um par de sapatos ou uma panela de pressão.

Eventualmente ela mostra-lhe algo no jornal, na sessão de cinema. Ele dá uma olhada rápida e concorda com ela com um engasgado "Hum!". Creio que para se livrar dela. Ela aparenta satisfeita com a resposta.

Em poucos minutos os dois se levantam, pagam a conta e saem porta afora... a caminho do cinema.

Eu, aproveitando os poucos minutos de silêncio no recinto - antes da chegada dos próximos desconhecidos - [glut!] termino meu café rapidinho e vou ver o jogo do Brasil, em casa, ao som dos batuques nas arquibancadas.

Isso sim é comodidade.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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