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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 26/5/2002

Pablo e Abelardo, iguais mas nem tanto

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Pablo e Abelardo cresceram juntos em uma pequena cidade do interior. Fizeram tudo que garotos do interior fazem: jogaram futebol, bola-de-gude, botão; brigaram, colecionaram figurinhas com fotos dos super-heróis; brecharam moças nadando (nuas) no rio; saborearam algodão-doce, quebra-queixo, roleto de cana-de-açúcar etc. Enfim, viveram a feliz vida de crianças felizes e saudáveis do interior.

Em meio à adolescência suas famílias mudaram de cidade, indo cada uma para uma cidade diferente. Ainda assim a amizade continuou e as lembranças dos tempos de menino naquela cidadezinha do interior também continuaram: as brigas, as meninas, a bola-de-gude, as peladas, o rio... tudo continuou na memória de Pablo e de Abelardo.

Devido à distância entre suas novas moradas, os dois amigos passaram a se ver raramente. Porém, sempre que se encontravam, parecia que o tempo parava para eles. Falavam do passado como se ainda continuassem nele.

Os anos se passaram e eventualmente os dois pararam de ser ver por completo. Estudos, trabalhos e a velha sobrevivência do dia-a-dia ajudou na separação que, com o desenrolar do tempo, foi fatal. Cada um seguiu seu rumo à procura do seu próprio destino, de novos interesses e de novas aventuras.

Trinta anos mais tarde, numa dessas coincidências que, vez em quando, a vida proporciona, os dois se encontraram em um shopping center desses da vida. A surpresa foi enorme e a alegria ainda maior. Os dois se abraçaram, se olharam e lágrimas não contiveram. "Vamos bebermorar!", falou Pablo. "As primeiras rodadas são minhas!", disse Abelardo.

Os dois saíram abraçados à procura de um boteco. O primeiro que acharam entraram e logo puseram-se a conversar. As estórias eram similares e o gosto por bebidas também. Mesmo depois de tantos anos afastados um do outro, ainda assim os dois aparentavam compartilhar das mesmas alegrias, como se fossem irmãos gêmeos. Suas idéias eram parecidas. "Claro que nossas idéias são parecidas. Nós crescemos juntos, pô!", dizia Pablo. "É mesmo, Pablo, você tem toda razão", afirmava Abelardo. E riam, riam e riam.

Tudo era motivo para risos e gargalhadas; dos óculos — com a armação faltando uma perna — do garçom à uma conversa sobre uma imaginável guerra nuclear entre o exército russo e as "forças desarmadas brasileiras", como se referia Pablo. Gargalhavam até começarem a tossir como venerados fumantes.

"E casamento?!", perguntou Pablo, repentinamente. "Casamento?!!", respondeu Abelardo às gargalhadas, quase que se engasgando no meio de um gole de vinho: "Você tá falando sério?!". E mais gargalhadas.

"Namorado?!", perguntou então Pablo, agora olhando-o seriamente nos olhos. "Bom, namorado...", Abelardo mal começou a formular uma resposta e logo foi interrompido pelas gargalhadas de Pablo, que dizia, enquanto gargalhava em voz alta: "Só faltava essa agora. Você de namorado. Não posso nem imaginar!". E mais gargalhadas.

Um copo de vinho e outro... e mais outros e agora os dois já não mediam mais suas palavras. Falavam de tudo e de todos. Piadas e assuntos sérios se misturavam. Tudo era motivo para risos. Quando a palavra casamento surgia na conversa, gargalhavam.

Por volta da sexta garrafa de vinho e do décimo pratinho de tira-gosto, uma belíssima mulher loira, alta, saradíssima, bronzeada e muito bem perfumada entra no recinto. Com ela, um burundinês também alto, fortíssimo, cabelos longos em estilo rastafari, um brinco de prata na orelha direita, dentadura e sorriso de comercial-de-pasta-de-dente e vestindo uma calça jeans e uma camisa branca, aberta no peito, afirmando o que diz a canção do Gil: "Os músculos másculos dizem respeito."

Pablo e Abelardo ficaram perplexos. Ambos se olharam para confirmar suas repentinas perplexidades, as quais não perigavam a menor desavença de opinião entre os dois. O charmoso casal sentou-se a algumas mesas da deles e logo tornaram-se o centro das atenções de todos ali presentes.

Como nessas horas é impossível ficar calado, Abelardo, com um sinistro olhar em direção ao casal, sussurrou — pelo canto da boca — para Pablo: "E aí meu caro, dada a chance, você pularia em cima dela — aqui e agora —, como se não existisse amanhã?", ao que Pablo, já bêbado e com a cabeça rodando mais que hélice de moinho holandês — enquanto olhando em direção ao casal — retrucou: "Um negrão lindo assim, claro!!!"


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

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Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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