29 de janeiro de 2020 Home | Conte sua história | Cadastre-se | Sobre nós | Fale Conosco | Anuncie aqui
 
 
Voltar para a home do GEx
twitterFacebook    Editorial GEx
pesquisar
 
   
 
Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 5/3/2002

Enquanto rapaduras sobrevoam Jaboatão, no Carnegie Hall...

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

"Requiem"

Fui ao Carnegie Hall para ouvir o "Requiem" do compositor francês, Hector Berlioz (1803 - 1869) - com a Boston Symphony Orchestra, o Tanglewood Festival Chorus e o tenor Stanford Olsen -, sob a regência do maestro japonês, Seiji Ozawa.

A performance do "Requiem" foi excelente. O maestro Ozawa regeu a longa peça de cor e... [sem "saltear" nenhum compasso] salteado.

Carnegie

Inaugurado no dia 5 de maio de 1891 - com um concerto que contou com a participação do compositor russo, Peter Ilyich Tchaikovsky -, o Carnegie Hall é o teatro mais famoso dos Estados Unidos e um dos mais famosos do mundo. Os grandes nomes da música (de Tchaikovsky a Jobim) já passaram por lá.

Nos anos 60, não fora a luta do violinista russo, Isaac Stern (1920 - 2001) - um dos mais respeitados violinistas do século XX -, contra a demolição do teatro (que comporta três mil pessoas), um arranha-céu teria sido erguido por sobre as ruínas do prédio.

Poleiro

Além de orquestra e coro, o "Requiem" requer três grupos instrumentais - 2 trompetes, 2 trombones, tuba, percussão e voz -, posicionados em três diferentes localidades, pelo poleiro do teatro.

Nas partes culminantes da execução, o maestro gira noventa graus para reger os grupos nas galerias. Acusticamente falando, o resultado sonoro equivale ao de um sistema quadrafônico. É bom notar que essa faceta acústica já era usada bem antes de Berlioz.

Seiji

Maestro Ozawa deve ter um pouco mais de um metro de altura. Seus cabelos são longos, lisos (não negam a origem), grisalhos, grossos e, quando no palco, sempre assanhados - lembrando uma peruca de espantalho -, o que torna sua cabeça maior do que já é.

Olhando-o por trás, tem-se a impressão de se estar na presença de um nordestino - mais precisamente, um cearense -, tamanha a desenvoltura do miolo craniano.

Sua estatura física não impressiona. Pelo contrário, lembra a de um faquir que, por haver engordado, tornou-se jóquei. Ele é pequeno - desde menino - e a cada ano diminui um pouco mais. Seus empresários temem que seja esmagado pelo mata-mosca do "concertmaster" (violinista principal) - se confundido por maestro. bom.

Kung-Fu

Apesar do preparo físico de bicheiro, o seu talento e presença musical (no palco) o tornam um gigante. Com os cabelos arrepiados e em posição de Kung-Fu, Seiji dá golpes fatais no ar, os quais são musicalmente traduzidos por seus músicos.

Eu sentei próximo ao palco, por trás do maestro. Tão próximo eu estava, a primeira vez que ele virou-se para a platéia - para reger os músicos no "poleiro" - me assustei achando que era para eu "attacar". Quase comecei a gritar [Ahhhhhhh!!!] junto com o coro. Após intensos segundos de desespero, notei que não era a minha atenção que ele buscava.

Quando os metais soaram, parecia que o céu estava se abrindo e os anjos descendo com suas trombetas. Tudo estremeceu! O céu realmente acabara de se abrir (para aqueles ali presentes). Uma revelação musical.

Pigarros

Enquanto sons angelicais preenchiam o recinto, outros - nada celestiais e muito menos angelicais - surgiam da platéia (nos curtos intervalos entre os movimentos); as tosses e os pigarros.

Temperatura

Com as mudanças inesperadas de temperatura - como acontece em Nova York, São Paulo, Curitiba etc. - é comum se ouvir (das platéias) os impertinentes hum-huns de pessoas limpando suas gargantas. O barulho é alto o suficiente para que a platéia sinta-se aliviada quando o "pigarrista" finalmente engole o mosquito.

A tosse

Tem gente que, quando vai ao teatro, já sai de casa tossindo. Outros, preferem esperar que o concerto comece. Outros esperam pelo "Adagio" ou pelo solo melancólico, romântico e suave de um violino. Tudo uma questão de gosto e... perfect timing.

Estou convencido que, no fundo, todos querem mesmo é tossir. É para isso que vão ao teatro. Para tossir. À vontade. De coração. Sacou?!

Alguns até reclamam: "Por que essa orquestra aqui? Assim ninguém vai ouvir o pigarro e a tosse-de-cachorro-goguento que acabo de adquirir!". Outros, passam o concerto inteiro tossindo. Só param de tossir quando vão ao banheiro, no intervalo. Na volta, ao soar dos trombones, sempre se engasgam com o amendoim que - pegado no balcão do bar - planejavam comer durante o concerto.

Macaco velho

O maestro, por outro lado - macaco velho -, sabe exatamente como lidar com a situação. Para a orquestra, sorri para o spalla (enquanto limpa a unha com a ponta da batuta) e "Um, dois, três e..."; ataca de Allegro ma non troppo! E o recinto permeia-se de sons:

- Cof! Cof! Cof!

- Atchim!!!

- Hum! Hum.

- Zzzzzz.

É a platéia. seguindo o seu maestro.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


Últimos artigos de Raimundo Penaforte

Compositor é residente da Unicamp
Olha esse céu de Londres
Dicas de viagem
Tocando ou Compondo
Jingle Bell, Mr. Noel!
Hino Nacional
Music at the Deli
Atenção, camera! Ação!!
Um Músico com muitas habilidades
Lançamento do Livro: Em sintonia com a música

Veja todos os artigos publicados por Raimundo Penaforte clicando aqui.


Especiais GEx
Carreira e Sucesso

Carreira e Sucesso
Empreendedoras em atendimento

Especiais GEx

 
   
 
© 2020 Global Exchange. Todos os direitos reservados.