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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 26/1/2002

Em Nova York, velhos sons provocam novas reações

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Sirenes

Vocês se lembram daqueles constantes sons de sirenes polícia, bombeiros, ambulâncias etc. nos filmes americanos? Continuam os mesmos na vida real mas a maneira como as pessoas os ouvem, em Nova York, quanta diferença.
Como toda cidade grande, Nova York é uma cidade barulhenta. Uma das coisas que a torna ainda mais barulhenta são as sirenes. Elas gritam constantemente pelas ruas da cidade. São tantas e tão freqüentes que terminamos ignorando-as. A irritação acaba implodindo dentro da gente.

No passado, sempre que um amigo me ligava de Recife, comentávamos os sons cotidianos dessa cidade. Às vezes, eu colocava o telefone para fora da janela para que ele ouvisse melhor o barulho dos carros, das buzinas etc. Ele se deleitava e dizia: "É igual aos filmes na televisão, velho!"

Ao término da conversa, eu voltava para o meu fechado mundo de sons internos o pertubado mundo sonoro dos compositores e ele para a sua televisão e seus filmes hollywoodianos repletos de sons de sirenes, pneus cantando no asfalto e tiroteios.

John Cage

Um certo compositor americano chamado John Cage, dizia adorar barulho. Ele morava em uma esquina barulhenta em Manhattan e mantinha as janelas de seu apartamento abertas para, segundo ele, apreciar melhor os sons da rua. Coisa de maluco, claro.

Dentre as várias loucuras que criou, Cage ficou conhecido especialmente por uma peça que compôs chamada: 4'33" ("Quatro minutos e trinta e três segundos").

A peça era executada da seguinta maneira: ao entrar no palco, o pianista sentava-se ao piano, abria a tampa do piano, abria a partitura, colocava um relógio (um despertador cavalar daqueles, estilo feira de Caruaru) em cima do piano e não fazia mais nada a não ser, olhar para a partitura e o relógio, simultaneamente. Durante 4'33" ele não tocava absolutamente nada. O silêncio era total. A vontade de ir ao banheiro devia ser brutal, por parte do espectador.

Na platéia, o som que as pessoas faziam com seus movimentos, seus pigarros, suas inquietudes... eram os sons que interessavam ao compositor não necessariamente à platéia.

As reações variavam de acordo com o tipo de platéia para a qual a peça era executada. E variavam mesmo. Cada platéia que reclamasse mais do que a outra o fato de, por quatro minutos e trinta e três segudos, esgotar seu repertório de tosses e pigarros à espera de algo que. jamais acontecia naquela performance: música.

Conselhos

Logo que cheguei a Nova York, fui aconselhado por alguns amigos músicos a sempre que ouvisse o som de um trem, de uma sirene de ambulância ou de um carro de polícia, tapar os ouvidos.

Me falaram que, no momento em que esses barulhos parassem de me incomodar, era porque os meus ouvidos haviam começado a perder a sua sensibilidade auditiva. Segui fielmente esses conselhos e ainda hoje os tapo quando ouço um casal brigando, ou o choro de algum moleque em dueto com os gritos da mãe.

Tinnitus

Li que os guitarristas Jeff Beck, Keith Richards (do grupo Rolling Stones) e o contrabaixista Charlie Haden sofrem de um mal chamado Tinnitus a presença de um eterno zunido dentro da cabeça. Confesso que, após ler o artigo, passei a ouvir o tal zunido. Eventualmente me dei conta que o meu problema era outro: paranóia.

Dizem as más línguas que a exposição dos ouvidos a sons altíssimos de amplificadores é uma das causas desse mal. É bom notar que Beck e Richards são roqueiros desde a criação do mundo, mas Haden não. Ele é jazzista.

Terremoto

O soar de uma sirene ou de um helicóptero sobrevoando os prédios (atrás de algum ladrão), ou o simples passar de um avião por sobre Manhattan já não são coisas ignoradas, como no passado. Tudo provoca íntimas reações seguidas de duvidosas hipóteses.

Há dois meses eu estava no cinema quando um vigoroso bum! seguido por um forte tremor de terra retumbou por baixo dos pés. Todos, no recinto, nos olhamos com olhares de interrogação.

Eu pensei, cá com meus botões: "Que paranóia de terrorismo, desse pessoal. Será que essa gente não percebe que é o metrô passando por baixo do prédio?"

Descobri, dias depois, que a minha hipótese estava absolutamente errada.

Havia sido um terremoto.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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