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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 21/12/2011

Jingle Bell, Mr. Noel!

Uma reflexão sobre o Natal.

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Há anos não relia esse artigo. Me lembro de quando o escrevi e de como eu me sentia. A guerra estava começando. Os quase 5 mil soldados americanos mortos juntamente com mais de 100 mil iraquianos e afegãos que estavam tomando chá, ou fumando caximbo, ou a caminho da venda, ou orando na mesquita, ou se coçando...quando os ataques começaram, ainda estavam vivos e cheios de planos como eu, tu, ele, nós, vós, eles.

Os aviões de guerra começaram a jogar uma bomba atrás da outra e assim começou a briga de foice. Era a primeira semana de outubro, de 2001 e eu me encontrava na Cathedral of Saint John the Divine assistindo a missa dos animais. Não me refiro aos padres mas aos animais de verdade: cachorros, gatos, cobras, águias, vacas, cabras, bodes, tartarugas, crianças e sogras...

Que vergonha, não? Tantos estudiosos nesse mundo, tantos PhDs, tanta religiosidade, enquanto a merda batia no ventilador e bateu até essa semana, quando anunciaram que a guerra acabou e que os soldados sobreviventes, mesmo que com as almas mortas, começaram a voltar para casa. Uns faltando dentes, outros pernas, outros braços, outros olhos, outros mãos, outros pés, outros mentes, outros futuros, outros passados e outros outros... Aposto que se perguntar-lhes a razão da guerra, provavelmente não terão resposta imediata.

Natal não é uma época que me anima, como o verão ou um belo suco de cajá. O clima frio e a pressão das comemorações me irritam. Esse fator só tem piorado com o passar dos anos. Uma coisa que me surpreendeu ao reler o texto sobre o natal, escrito há dez anos(?), foi observar que, tirando a data do começo da guerra, tudo o mais continua o mesmo no que diz respeito as celebrações de Natal, em NY. Os humanos, continuam parecidíssimos com gente e eu achava que eram só os turístas.

Beijo e Boas Festas!


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br
Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Crônica de Natal, escrita por Raimundo Penaforte dez anos atrás:

 

A tradição

É natal aquela época do ano onde reconhecemos e presenteamos, como de costume, os íntimos mais íntimos e os próximos mais próximos.

Natal é um dia histórico. Segundo a bíblia, um certo menino franzino nasceu lá em Belém, Israel, há anos e mais tarde deu muito o que falar. 2001 anos depois, esse acontecimento natalício virou razão para um mês inteiro de celebrações, não do nascimento do garoto, mas desse auê que o mês de dezembro provoca. É a hora de comprar! Quem tem compra, quem não tem põe no cartão. As lojas lotam como se estivessem prestes a fecharem e como se comprar só fosse permitido no mês de dezembro.

O ato de dar presente é uma das maneiras que o ser humano criou para espressar carinho, respeito e reconhecimento a outro. Dependendo da cultura as pessoas presenteiam-se, uma às outras, de maneiras variadas. Em Nova York, por exemplo, quando se vai a um jantar na casa de alguém, normalmente se leva um vinho, dependendo do cardápio, ou outra bebida qualquer. As vezes se leva flôres e outras ... até o próprio jantar.

Segundo relato bíblico, quando aquele menino nasceu, lá em Belém, três caras que andavam à camelo pelo deserto, conhecidos como reis magos, ao ver uma enorme estrêla no céu confirmando o nascer desse bebê , camelaram para visitá-lo. Lá chegando, trouxeram-lhe ouro, incenso e mirra. Talvez alí, tenha-se iniciado a tradição da troca de presentes no natal.

Essa tradição do natal não deixa à desejar em Nova York. Pelo contrário, a doença pode ter sido originada aqui. Nas lojas, as ofertas de natal geralmente começam por volta do final de setembro fazendo uma menorpausa em novembro, para o Thanksgiving ("Dia de ações de graças"). Essa data é celebrada só nos EUA. Esse ano foi mais celebrada na bolsa de valores com a baixa no preço das ações do que nos lares novaiorquinos.

Passado o Thansgiving, a atenção se volta para as coisas natalínas. O aniversariante, o tal menino de Belém, é mais uma vez esquecido. Por outro lado, as razões por traz de certas celebrações, ramente são mencionadas.

Outras celebrações

Quem passa a semana da pátria pensando na pátria? Quem pensa no trabalho, no dia do trabalho? Quem pensa no apóstolo João, no dia de São João e no meio de uma dança de quadrilha à comer canjica, pamonha e milho cozido, em Pernambuco? Quem pensa na bandeira, no dia da bandeira? Mas o carnaval... Bom, aí a coisa muda.

Nos dias de carnaval o mundo inteiro fica atinado. Carnaval não é dia histórico é carnaval, a festa da carne e do carnal , o povo celebra o fato de ser povo e como povo, pinta e borda durante quatro dias apoteóticos. As celebrações carnavalescas, como sabemos, são iniciádas às 12:01 hs da madrugada do dia primeiro de janeiro e só terminam na quarta-feira de cinzas, em algum dia de março.

O menino

Aquele menino, que chamou-se Jesus, veio numa missão de paz e aparentemente foi mal entendido. Acabou numa cruz, com uma coroa de espinhos na cabeça e ao lado de dois bandidos. Talvez, se tivesse ficado calado, não o tivessem crucificado. De qualquer forma, vida terrestre não era sua práia. Ele pregava sobre outro tipo de vida. Aquele tipo onde natal e carnaval não existem e morte é o começo da eternidade.

Tragédia com final feliz, comercialmente falando, só funciona nos filmes de Hollywood. As pessoas querem nessa época do ano, em geral, é usufruir do comércio e vice-versa... e abraçar os amigos pois o futuro é incerto. As crianças (umas poucas felizardas) esperam que seus pedidos sejam respondidos por aquele velhinho barbudo (não o Hermeto Pascoal) que chega à noite, pela chaminé, com uma sacola repleta de presentes e tossindo: ho, ho, ho! Os adultos, como as crianças, também aguardam alguma mágica natalína ... na calada da noite. Como ela acontece, não se sabe. Talvez por osmose.

Em Nova York

O natal novaiorquino reflete esse ato social o compromisso natalíno do dia 25 de dezembro a ceia, a confraternização e a troca de presentes. Judeus, ateus, mulçumanos, budistas, macumbeiros, cachaceiros, brasileiros ... todos festejam esse feriadão. De uma certa forma, todos nessa cidade celebramos a celebração não necessariamente o celebrado.

Os prêços nas lojas baixam, as ofertas de vendas multiplicam-se e todos participamos dessa ceia comercial. É impossível ignorar a realidade do comércio nessa época do ano. As ruas novaiorquinas parecem labiríntos madievais repletos de formígas. Tem gente em tudo que é buraco.

As árvores

Alguns dias atrás acenderam, em uma celebração que contou com a participação da primeira dama dos EUA e o prefeito da cidade, 30.000 luzes coloridas (total de luzes acendidas no Ceará inteiro) em um pinheiro de 25 metros de altura, no Rockefeller Center, em Manhattan. Aquela praça onde, nessa época do ano, pessoas e turístas* (*primata que se veste como havaiano e que se alimenta exclusivamente de Big Macs) patinam no gelo.

Essa não foi a única árvore de natal, tamanho família (de gigantes), erguida em Manhattan. Ergueram uma árvore também no Central Park, na frente da prefeitura, no Lincoln Center for the Performing Arts, no parque do Brooklyn e em vários outros lugares. Cada pinheiro maior que o outro e com luz o suficiente para iluminar um quarteirão.

Como nem só de luz vive um pinheiro de natal, bolaram também um tipo de pinheiro que, ao invés de luzes é adornada com pessoas. Trata-se de um coral formado por dezenas de cantores que brilham com suas vozes enquanto posicionados em um palanque em forma de árvore de natal. Isso acontece no South Street Seaport, que fica próximo ao local onde, em um passado não tão passado, existiram as torres do World Trade Center. Além disso, teatros como o Radio City Hall, Carnegie Hall e Lincoln Center entre outros, além de ornamentarem suas árvores também promovem milionárias produções natalínas.

O renascimento

Esse ano, com a guerra no Afeganistão e a recessão, o natal pode não ser dos mais badalados. Ainda assim, existe uma necessidade no povo americano de não demonstrar fraqueza perante obstáculos. Com isso, tudo é realizado com esforço dobrado. Desta feita, quem sabe o natal de 2001 termine sendo o mais natalino dos natais.

Nova York, nesse momento queira ou não celebra o renascimento de um sentimento comunitário mútuo onde o próximo é peça fundamental.

Esperamos que os milhões de soldados, que agora lutam nos desertos do Afeganistão, tragam, como os reis magos trouxeram a Jesus: paz, amor e liberdade para juntos celebrar-mos o nascimento desse bebê chamado conscientização humana:

Jingle bells na vitrola, jingle bells nessa aurora
Nas noites estreladas por sobre os telhados das américas
Na casa do João, na casa do José...
Nas cavernas do Afeganistão,
Na casa da família desconhecida do soldado desconhecido,
Mas sabido que está morto... ou será que está vivo?
No barraco do Joel
No puteiro de Isabel
Well...
Jingle bells, Mr. Noel!

À vocês, assíduos leitores do Global Exchange, um feliz (da mais feliz de todas as felicidades) dezembro, janeiro, fevereiro...

Amem! ... é o meu sincero desejo.


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

Saiba mais - Apresentação

Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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