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Coluna do Raimundo
 
 
Postado em 26/10/2001

Com força e vontade Nova York espalha felicidade

Por Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Uma das razões que leva as pessoas a se apaixonarem por Nova York, creio, é o fato desta cidade estar sempre alerta e aberta a tudo. Existem umas coisas, no cotidiano nova-iorquino, que acontecem com muito mais freqüência aqui do que em qualquer outro lugar do mundo.

Por exemplo: sair do cinema e dar de cara com o ator do filme que se acabou de assistir. Dar uma volta de bicicleta, ao redor de Manhattan, e parar por 20 minutos para ouvir uma conversa entre o Clinton e um ciclista. Passar em frente a um teatro, a caminho de um cinema, e ver o Al Pacino caminhando em direção ao carro. Entrar num recinto e dar de cara com um cidadão alto, loiro, cabeludo e barbado e acompanhado de duas loiras esculturais. Mais tarde se tocar que se tratava do guitarrista Eric Clapton. E os exemplos são infindos...

Há dois domingos cheguei do Brasil. Para ser mais exato, cheguei de Fortaleza, Ceará um dos poucos lugares, no mundo, onde o sol esquece de se pôr e, quando a lua chega, vira a versão morena do dia.

Nova York estava ensolarada, mas fria. O sol aqui tem memória boa. Ele não trabalha hora extra nem espera a saideira. Às vezes sai antes do final do expediente.

Vim do aeroporto direto para o Hungarian Pastry Shop, um local famoso porém pequeno, onde figuras como o diretor/ator Woody Allen e o compositor Bela Bártok já passaram por lá. Lá você pode saborear o pior café do mundo o café americano que tem gosto de tudo, exceto de café. Claro que gosto é uma coisa pessoal e só eu e o resto do mundo pensamos assim em relação ao tal café, porém, não deixe que esse conceito influencie a sua escolha.

De qualquer forma, lá você encontra vários tipos de café, chás variados e mais uns docinhos estilo Paris dos quais me mantenho à distância, por questões físicas. Por outro lado, no Hungarian, pelo preço de um, você toma o quanto quiser tomar do chamado regular coffee.Você pode ficar tomando-o, como se diz em inglês: "until the cows come home", e nenhuma garçonete irá lhe pedir para sair do recinto. Ao contrário de todos os outros cafés, em Nova York.

Como já falei, o dia estava bonito na cidade que nunca dorme (e agora mais ainda). O sol ensolarava o granito e o asfalto e tudo parecia normal. Pelo lado de dentro do Hungarian, enquanto eu usufruía desse momento - entre um gole de café e outro , notei que uma fila de pessoas e bichos, ou melhor, animais racionais e irracionais, se formara em frente à famosa - e formosa Cathedral of Saint John the Divine. A maior catedral gótica do mundo.

Eu devo ter chegado ao Hungarian por volta das 8:15 da manhã. Essa fila já começara antes da minha chegada, para uma missa a ser celebrada às 11:00 horas daquela manhã. A razão da presença de animais irracionais na fila, era o fato de se tratar da missa a São Francisco de Assis que, segundo crença popular, é o protetor dos animais.

Todo ano, no primeiro domingo de outubro, a catedral abre as suas portas para os animais irracionais. Como eles não podem vir sozinhos (por causa da carrocinha), trazem consigo seus donos. Claro que os donos não pensam assim. Infelizmente, todo ano me esqueço de atendê-la, porém esse ano, aproveitando a minha chegada matutina em Nova York, fui assistir à chamada Missa Gaia ou Earth Mass do saxofonista/compositor americano, Paul Winter.

A celebração foi lindíssima e contou com a participação doPaul Winter, o Paul Winter Consort mais a participação especial de Dorothy Papadakos, organista oficial da catedral e um coral de trezentas vozes, além de músicos convidados.

Não sei exatamente quantas pessoas se encontravam no recinto. Sei que a catedral comporta em torno de 5000 pessoas. Imaginem que, pelo menos, metade dessas pessoas traziam seus respectivos animais de estimação. Além de cachorros, que é normal, haviam também cobras (uma delas de colar e chapéu), periquitos, papagaios, gatos, pássaros, camaleões, sogras etc.

Como se não houvesse bicho o suficiente no local, à certa altura do campeonato, ou melhor, da missa, as portas centrais da catedral foram abertas essas portas são abertas só uma vez por ano para essa ocasião e mais bichos entraram de porta à dentro, em procissão.

Dentre eles se encontravam; um camelo, duas lhamas, uma águia enorme, uma coruja (de cara branca) do mesmo tamanho da águia, cobras e pássaros de variadas espécies, uma vaca tipo a vaquinha Mococa (lembram?), porcos, coelhos, galinhas, cabras, cabritos e bodes, um pônei, cachorros farejadores do corpo de bombeiros e da polícia militar e também alguns dançarinos com bandeiras coloridas saltando como gazelas pelo recinto... (ou eram gazelas de verdade?).

Bom, confesso que há tempo não participava de algo tão bonito e radiante. Fiquei emocionado vendo aqueles bichos trazendo consigo ou sendo levados por seus donos enquanto refletia no fato que pessoas e bichos aparentavam compartilhar, cada um à sua maneira, de uma felicidade mútua no que diz respeito à celebração da vida.

O leitor há de perguntar: "e o barulho?" E eu respondo com outra pergunta: você já foi à algum concerto no Carnegie Hall, em Nova York? Se a resposta for sim, então imagine um lugar menos barulhento.

Os latidos eram esparsos, como choro de bebê em cinema. Esses latidos, pude constatar, vinham daqueles cachorrinhos pequenos que ficam nos braços das madames a latir para tudo que se move ao seu redor. Latem principalmente para cachorros grandes que os devorariam em meio segundo. Não entendo por que tanta raiva numa criatura tão pequena. Deve ser complexo de feiúra ou de tamanho.

Um deles, um versão encolhida de um doberman nos braços de sua dona, vestia uma bata preta de mangas compridas e chapéu. Esse era o mais abusado de todos. Latia para a própria sombra. Não devia estar gostando nem um pouco do que vestia.

Ao término da missa, antes da oração final, o reverendo anunciou que acabara de chegar aos seus ouvidos a notícia que os Estados Unidos iniciara os ataques contra as guerrilhas do Osama bin Laden, no Afeganistão. Isso causou um tumulto geral entre os racionais. Algumas pessoas começaram a chorar...e os irracionais começaram também a se mover.

Passada aquela convulsão momentânea, o reverendo orou e após à oração, saímos todos ao som de música...guiados pela procissão de animais.

Por conhecer alguns dos músicos que participavam dessa celebração, fui levado pelo som e pela emoção do momento à me unir àquela banda. Logo me deram um instrumento de percussão e pude, por alguns minutos, entre lágrimas de felicidade e tristeza, celebrar o ritmo e a vibração da vida de todos os seres "racionais" e "irracionais" ali presentes.

Como diz a canção do Ivan Lins: "Com força e com vontade, a felicidade há de se espalhar com toda intensidade". Nesse exato momento, Nova York luta intensamente para espalhar essa felicidade, também chamada paz.

Ao vir à Nova York, não esqueça de fazer uma visita à Catedral São João o Divino (Cathedral of Saint John the Divine) e depois, tomar um café no Hungarian Pastry Shop, logo em frente. Provavelmente me encontrará lá dentro, escrevendo alguma coluna para a globalexchange.com.br. Pode chegar perto e falar oi.

All the best!


Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br

Raimundo é compositor e correspondente do Global Exchange em Nova York.

 

Sobre o autor...

Raimundo Penaforte

Músico, compositor e arranjador é um dos mais prolíferos músicos brasileiros de sua geração. Suas músicas têm sido apresentadas na Europa, Canadá, Japão e no Brasil. Nos Estados Unidos, a música de Raimundo tem sido tocada nos mais importantes locais do país como a Casa Branca, Kennedy Center, Kravis Center e Lincoln Center for the Performing Arts.

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Raimundo Penaforte
raimundo@globalexchange.com.br


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