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Postado em 30/5/2004

Um jovem no Caminho de Santiago de Compostela, por Jorge Peñaranda

Jorge Peñaranda, um jovem geólogo, de nacionalidade espanhola, residente no Brasil há 10 anos, percorreu o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Leia o que ele tem a dizer sobre a viagem, sua impressão pessoal e o que ele ganhou com essa experiência, numa entrevista exclusiva a nossa jornalista Ana Luiza J. Carl.

GEx: Jorge, me conte como e por que surgiu a idéia de percorrer o caminho de Santiago de Compostela?
Jorge:
Bom, surgiu das circunstâncias que eu estava vivendo. Não me refiro a algo existencial, mas porque uma série de vontades e de casualidades apontavam neste sentido. A vontade veio do fato de já conhecer Santiago anteriormente. Vivi muitos anos na Galícia e todo ano os meus avós tinham por costume levar os netos à cidade onde a "pedra floresce". Queria revisar as minhas memórias de infância e visitar a minha mãe, a minha terra era algo que estava nos planos...e logicamente Santiago. A casualidade é que uma pessoa que conheci há pouco tempo e que admiro muito, acabou contando da sua viagem de peregrino e me animou muito quando lhe contei que estava pensando em fazer um pedacinho do caminho.

GEx: Quantos km você percorreu e em quantos dias?
Jorge:
Percorri 200 km em seis dias e meio.

GEx: Por onde iniciou sua viagem?
Jorge: Bem, eu fui peregrino do caminho português. Há vários inícios e rotas possíveis. Eu escolhi sair de Braga, indo pelo interior. Braga- Ponte de Lima, Valença, Tui, Padrón e Santiago.

GEx: O que levou (roupas, equipamentos, etc)?
Jorge: Levei na mochila um décimo do peso do meu corpo. Esta é uma regra básica para o peregrino. Levei quase que exclusivamente roupas; duas camisetas, um short, uma toalha leve, três pares de meias, uma calça, um casaco e boné. E em termos de equipamento; saco de dormir, canivete suíço, lanterna, remédios e uma câmera descartável. Além da roupa do corpo ; shorts, camiseta, boné, bota profissional de caminhada, dois pares de meias (uma fina e outra grossa)

GEx: Como são as pensões, os albergues, os restaurantes e a recepção nas cidades por onde passou?
Jorge: Infelizmente não há estrutura para o peregrino na parte portuguesa do Caminho de Santiago, já o caminho espanhol oferece o básico para passar a noite (os famosos Albergues). Mas em termos de comida nunca me faltou um bom lugar onde almoçar ou jantar bem e barato em qualquer um dos dois países. Acontece que por não existir em Portugal estrutura de acolhimento gratuito ao peregrino o que encarece a viagem é o preço das pensões, um valor médio para a pensão básica de 10 Euros, e isto faz total diferença depois de uma semana!

Achei as pessoas educadas, em Portugal parece haver mais interesse pela figura do peregrino, acredito que é porque não são pessoas tão corriqueiras quanto na Espanha. Segundo um amigo que fiz no caminho, e bom conhecedor da trilha e dos costumes, parece que dizer que você é um peregrino brasileiro faz total diferença no trato. Em geral os portugueses acreditam numa maior religiosidade e veneração dos brasileiros. Isto é um ponto a favor na hora de pedir algum tratamento diferenciado. Mas não há muito com que se preocupar, no interior (como em qualquer interior) as pessoas são simples e tentam agradar o visitante.

GEx: Qual parte do caminho você gostou mais?
Jorge: Depende. Em relação à parte visual acredito que a passagem entre Ponte de Lima e Valença. Você sobe um tremendo morro, no meio do bosque, mato fechado apenas com as indicações para o peregrino. Há muito silêncio, cheiro de pinheiros e a trilha é tortuosa. Tudo verde, aquele verde profundo do bosque do norte da península. Cheguei a imaginar matilhas de lobos medievais sorteando as arvores, acompanhando o meu passo sem deixar que eu escutasse os deles. Aliás brotar a imaginação é um exercício divertido perante tanta solidão.

Mas voltando... "o que gostei mais", outro exemplo poderia ser uma sensação: no final do dia ao chegar em Padrón, exausto o que mais me apetecia era comer, fui a um bar, pedi uma garrafa de vinho verde fresquinho e melão, foi delicioso o entorpecimento do vinho.... Sabe quando você se sente profundamente feliz sem uma razão fundamental e apenas se da conta do momento?

Outro momento foi quando me dei conta que faltava apenas um dia para chegar a Santiago de Compostela e percebi claramente que não haveria mais nenhum outro dia pela frent. Era um final de tarde de verão, calmo, quente com aquela claridade sem sol (pois o sol já caíra) onde os tons de azul vão permeando e substituindo as cores comuns, quase noite mas dia ainda, tudo parecia final e o caminho também.
Chorei, chorei com aquela amargura que doe na garganta, pouco sem me descontrolar (além do que tão pouca luz e olhos embaçados poderiam causar um acidente). E foi belo porque entendi algo essencial da viagem: o objetivo não é o importante, o verdadeiramente essencial é entender que o caminho é o importante, que o caminho é uma entidade e que a minha solidão foi aparente pois o caminho esteve comigo sempre, a cada passo, e falou o tempo todo, de diversas maneiras, através das paisagens, da história, da minha imaginação, do sofrimento físico, do prazer culinário, do anseio de superação e da vontade de desistir. Por isso a parte do caminho que mais gostei foram as partes, os desdobramentos do caminho.

GEx: O que foi mais difícil?
Jorge: O sofrimento físico. Tinha me preparado para a viagem mas o inconveniente da ausência de abrigos me obrigou a andar muitos kms diários na parte portuguesa. Ao chegar no quarto dia estava exausto e com dores terríveis nas articulações. Tive que diminuir meu rimo no quinto dia e repousar meio dia em Pontevedra, isso e uns anti inflamatórios resolveram o problema mas foi muito difícil chegar em Pontevedra. As minhas pernas não me agüentavam mais e caminhava 30 minutos para descansas 10. Foi duro!

GEx: O que você refletiu durante o percurso?
Jorge: Já apontei alguma coisa numa pergunta acima, mas além do entendimento do caminho eu diria que pensa-se em tudo. A minha vivência do último ano foi o que mais inspirou meus pensamentos. No início refleti muito sobre o passado, pensei muito numa garota que realmente amei e o quanto eu teria dado para que ela estivesse comigo, pensei nos problemas profissionais que enfrentei, pensei no pretérito. Na medida em que me atrelei ao caminho o presente tomou conta e comecei a enxergar a importância do momento que vivia, do agora. Foi quando estabeleci algumas metas, alguns planos e desejos e me senti disposto a não esquecê-los. Uma vez que guardei os planos no "hard-disk" da memória finalmente desliguei, e houve horas nas quais já não pensava em mais nada, simplesmente via o chão passar...isso foi muito bom também.

Acredito que a reflexão que surgiu na minha viagem foi profunda, principalmente porque era minha. Antes da caminhada evitei ao máximo qualquer doutrinamento literário do tipo auto-ajuda ou similar...acredito que isso me deu uma autonomia e um grau de liberdade muito válidos para compreender sem o peso de "estar obrigado a compreender".

GEx: Qual o significado desta peregrinação para os espanhóis?
Jorge: Não poderia generalizar. A pesar da Espanha ser um país de maioria católica há muitas diferenças culturais de tipo regional. Não acredito, por exemplo, que haja a mesma idéia de peregrinação num andaluz ou um basco do que pode haver para um galego. Pela proximidade e pelo fato de Santiago ser a capital da Galícia poderia dizer que todo galego já pensou em visitar o Santo Apóstolo.

Prefiro entender a viagem de maneira mais individual do que coletiva, por exemplo para as pessoas de cultura laica o passeio tem uma carga cultural muito forte, para os beatos o valor se encontra na religiosidade, poderíamos especular sobre um terceiro tipo de pessoa de cunho mais "moderno" e produto da literatura mística de massas, para esta a peregrinação seria mais individual-transcendental.

GEx: Qual seria a dica que você daria para outras pessoas que gostariam de fazer o Caminho?
Jorge: Primeiro entrar em contato com a Associação Brasileira dos Amigos do Caminho e pegar dicas práticas para que a viagem acabe em bom porto (calçado, peso, roupa, cuidados básicos...). Outra seria se preparar para assimilar a carga cultural, lendo sobre a história, arquitetura, biologia, geologia e assim poder desfrutá-lo em suas dimensões menos "populares". Finalmente, como disse um amigo que fez o caminho, é uma viagem na qual o peregrino deve estar preparado para se liberar do peso, da carga seja esta psicológica o mesmo material.

GEx: Você alcançou seu objetivo?
Jorge: Chegar a Santiago? Sim cheguei a Santiago, Cheguei a min? Talvez um pouco mais perto, mas tentei me libertar de qualquer expectativa ou objetivo além de simplesmente percorrer caminhos.

GEx: Você voltaria a fazê-lo? Quando e por quê?
Jorge: Sim. Quando for celebrar uma nova vida, por exemplo, a minha porque me apaixonei de novo, ou a do meu filho porque nasceu... assim gostaria que fosse.

 

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