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Sustainable Cities
 
 
Postado em 14/2/2012

Onde e Como Vivemos

Crescimento vertiginoso da concentração urbana

Por Eugenio Singer
singer@globalexchange.com.br

É no mínimo interessante saber por que o homem sente a necessidade de aglomerar-se em grandes centros urbanos. De acordo com o novo censo do IBGE, este número cresceu de 81,2% em 2000 para 84,4% em 2010 no Brasil, indice acima dos 82% dos Estados Unidos. Segundo dados do Programa Ambiental das Nações Unidas (Pnud), um milhão de pessoas se movem para as cidades a cada semana. Esse êxodo rural, que é realidade atual, nos foi apresentado há mais de 35 anos nas aulas de Geografia.

Os desafios impostos pelo crescimento vertiginoso da concentração urbana são imensuráveis. Se pensarmos que há alguns anos a Região Metropolitana de São Paulo crescia a uma taxa anual média de 500 mil pessoas, podemos imaginar as articulações e recursos necessários para suprir moradia, transporte, abaste-cimento de água e esgotamento sanitário, iluminação e saúde a toda essa população migrante, sem contar toda a infraestrutura logística para alimentá-la. Só no centro de São Paulo de acordo com o IBGE a população cresceu 15% nos últimos dez anos.

O que realmente nos intriga é a causa da migração. Por que as pessoas vêm para as cidades, se as condições das mesmas são as mais inóspitas possíveis? Por que, também, aumentam os índices de criminalidade e reduzem-se as velocidades de transporte e mobilidade nos grandes centros urbanos? Será a fome, nas áreas rurais uma das razões dessa migração? A existência de parentes morando nas cidades pode ser uma outra causa para que as pessoas migrem? Será que as informações não são confusas e distorcidas sobre a qualidade de vida nos centros urbanos? A atração pelo consumo, intrínseca ao nosso modelo de desenvolvimento, não forma um gradiente para tal êxodo e para a falsa idéia de melhoria de vida?

No passado, ainda na época da Guerra Fria, podíamos dizer que o regime socialista era mais benevolente com as pessoas de baixa renda, que a fixação das pessoas em áreas rurais era mais equilibrada e que o proprio ócio era valorizado para que as pessoas utilizassem seu tempo da melhor maneira. De certa forma, aquele regime tinha razão, pois, de acordo com Alberto Herrera, o homem veio ao mundo para pensar. Hoje, o paradigma já não vale mais, pois a China planejou para os próximos 10 anos uma migração de 350 milhões de chineses para novos centros urbanos, que estão sendo desenvolvidos dentro dos novos conceitos de sustentabilidade. Será?

A partir dessas considerações iniciais, podemos supor que a grande atratividade pela vida nas cidades se dá pela necessidade de autorrealização e melhoria das condições materiais. As pessoas definitivamente acham que as melhores oportunidades estão na área urbana, onde podem exercer na sua plenitude o papel de consumidor.

Paradoxalmente, tanto a qualificação quanto a falta dela permitem inferir que a premissa acima seja verdadeira. As melhores empresas e os maiores empregadores estão concentrados nas metrópoles, e daí a chamada para os profissionais virem para as cidades, ou permanecerem estabelecidos nos grandes centros. Tanto o setor de serviços como o de construção, apesar da imensa modernização, requerem ao mesmo tempo mais mão-de-obra e mão-de-obra barata, competitiva, o que, por sua vez, atrai a mão-de-obra desqualificada.

A agricultura, a mineração e o desenvolvimento de infraestrutura, principalmente a de transporte, que poderiam fixar pessoas longe dos grandes centros urbanos oferecendo-lhes boa mobilidade,possuem características diferentes e, portanto, impedem esse processo reverso. A agricultura cada vez mais utiliza tecnologia de precisão, informatizada e aplicada a culturas extensivas, nas quais a eficácia e a utilização de empregos são inversamente proporcionais. O nosso vasto território está sendo legado para a soja, algodão e cana de açucar, além da explotação de nossos recursos minerais. Inexiste, a não ser no Movimento dos Sem Terra, a preocupação para com as pequenas propriedades e a agricultura familiar. A mineração, que por muito tempo sofreu de grande desinvestimento no País, volta a atrair investimentos externos diretos. Em 2010 apresentou crescimento de 69% em relação ao ano anterior com produção de US$ 40 bilhões, porém com uma tecnologia mais avançada e geração de empregos muito menor do que no passado. Restam, portanto, os investimentos na infraestrutura, que foram abandonados pelo governo social-democrático que sucedeu o período militar. O planejamento nesse período focou principalmente a estruturação e a adaptação financeira ao mundo interdependente, termo comumente usado pelo publicitário Ricardo Guimarães e pelo ex-presidente americano Bill Clinton para caracterizar a globalização. Agora com o advento da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, procura-se tirar o atraso, com emergência é claro! O primeiro passo foi dado com a privatização dos aeroportos de Cumbica em São Paulo, Galeão no Rio de Janeiro e Viracopos em Campinas.

Os recursos necessários para o deslanche do desenvolvimento econômico que eram represados 5 anos atrás pelo BNDES, estão sendo liberados gradualmente. O BNDES tornou-se gigante, talvez maior do que o BID e com um papel fundamental para o desenvolvimento, equilibrado e justo. A combinação desses fatores, juntamente com o controle da grande sonegação fiscal existente e da corrupção (estas continuam sistêmicas nos últimos 5 anos), dariam sem dúvida ao Brasil, país de dimensões únicas e de população e taxas demográficas controláveis, as condições necessárias para o desenvolvimento rural, do  avanço tecnológico, além da planejada e não alcançada interiorização da população pensada há 50 anos atrás.

Além desses aspectos, sofremos também de um viés histórico, que foi a colonização a partir da costa brasileira, de mais de 8 mil km de extensão. Nessa bela e próspera região onde se concentra a grande maioria das capitais dos Estados brasileiros, e a 100 km ao longo do litoral, vivem quase 70% de nossa população. Há que se estabelecer ainda uma governança costeira adequada, de forma a otimizar esse enorme assentamento humano, geneticamente herdado dos colonizadores portugueses.

O grande papel dos governos – principalmente dos neoclássicos, que já reduziram seu tamanho por intermédio das privatizações, restringindo sua atuação às áreas prioritárias – é o de elaborar, implementar e monitorar as grandes políticas setoriais, trabalhando transversalmente, como gostava de citar a ex-minis-ra Marina Silva. Não obstante, a verdadeira e não utópica sustentabilidade advirá das ações do setor privado e das partes interessadas, principalmente da sociedade civil organizada.

Nessa direção, para melhor estabelecer onde e como viveremos melhor, é mister que nós, como seres indissociáveis que somos, nos organizemos a partir de nossa própria casa, quarteirão, bairro, distrito, cidade e assim por diante, para que possamos usufruir da capacidade humana de transformar – e de fazê-lo para melhor.

Os exemplos de sucesso não são poucos, assim como os desafios também não o são. Nova York, segundo o jornalista Gilberto Dimenstein, conseguiu reduzir a criminalidade a partir do momento em que se deu conta de que o respeito por seus moradores era papel determinante naquele processo, considerado irreversível. O respeito não é estabelecido por ato de decreto, lei ou discurso político, mas sim pela oportunidade de acesso que se oferece aos cidadãos de participarem de qualquer processo decisório. E foi nessa direção que, ao trazer a marginalidade da sociedade nova-iorquina para a discussão e a concepção dos planos de melhoria, se reduziu a criminalidade na “Big Apple”.

Em Hong Kong, por sua vez, demorou quase oito anos para que a discussão ampla com as partes interessadas permitisse a realização de um grande e ousado projeto de sustentabilidade. Discussões e planejamento com todas as camadas da sociedade foram travadas, definindo-se critérios de aprovação e indicadores para que todos e quaisquer projetos novos e existentes fossem analisados. Foi um dos maiores exemplos de planejamento participativo de desenvolvimento sustentável já produzidos em metrópoles da dimensão de Hong Kong. Esse processo impede que projetos de déspotas, esclarecidos ou não, sejam aprovados sem a participação da sociedade e com o comprometimento de recursos preciosos para distribuição dos benefícios aos munícipes. São Paulo através do Projeto Nova Luz e o Rio de Janeiro através do Porto Maravilha, poderiam se espelhar nos bons exemplos e resultados alcançados por grandes metrópoles.

Passados 5 anos do Acordo Ambiental Urbano firmado pelos prefeitos de 60 cidades em São Francisco, a cidade de Pasadena nos Estados Unidos, através do seu Green City Action Plan atingiu os seguintes resultados:

Energia: energia renovável – alcançado, eficiência energética – indefinido e mudanças climáticas indefinido

Redução de resíduos: resíduo zero – com alta probabilidade de ser alcançado, responsabilidade do produtor – com boa probabilidade de ser alcançado, responsabilidade do consumidor - alcançado

Projetos urbanos: edifícios verdes ou ecoeficientes, planejamento urbano e desfavelização – todos alcançados

Natureza urbana: parques - indefinidos, restauração de hábitats e vida selvagem - alcançados

Transporte: transporte público - alcançado, veículos com tecnologias limpas e redução de congestionamentos – com boa probabilidade de serem alcançados

Saúde ambiental: redução de substâncias tóxicas, segurança alimentar – com boas probabilidades de serem alcançados e ar limpo - indefinido

Água: acesso e eficiência, preservação de mananciais e redução de águas residuárias – todos objetivos com alta probabilidade de serem alcançados
 
O desafio é enorme, mas, para se abrir uma porta, é necessário chegar até ela. As ações referentes à implementação da Agenda 21 ainda são pífias. O Rio de Janeiro patina e logo mais teremos a Rio + 20 para verificar que andamos muito pouco. Com exceção do Canadá, cujas cidades aparecem na lista das cidades mais limpas, mais sustentáveis e com melhores desempenhos socio-ambientais perante a implementação da Agenda 21 e das Metas de Desenvolvimento do Milênio, são poucas as nações que avançaram de modo significativo.

Na verdade, nós, brasileiros, não queremos morar no Canadá, nem tampouco na Costa do Sol da Espanha, e muito menos nas cidades asiáticas. Queremos, sim, viver no Brasil e definir os indicadores – ainda que não sejam os ideais – que possam avançar gradualmente, servindo para mostrar à próxima geração, cidades melhores num país melhor. É isso que diz a sustentabilidade, no seio de sua concepção. Para tanto, é necessário agir!

O Brasil pode mudar e passar a ter um comprometimento e um desempenho de mais alta eficiência, realista e gradual. As nossas grandes corporações já estão mudando e crêem, de acordo com pesquisa da KPMG, que gerenciam com efetividade os riscos ambientais e de imagem além de outros aspectos de riscos. O Governo precisa deslanchar e a sociedade se mobilizar, caso contrário continuaremos vendo bueiros explodirem, adutoras e emissários se romperem, encostas deslizarem, pavilhões se incendiando, bairros se alagando e outras catástrofes que fazem tanto sofrer os munícipes de nossas cidades.

Para que possamos determinar onde e como vivemos, e ver o tão esperado “espetáculo da sustentabilidade” acontecer, precisamos iniciar uma grande jornada, estabelecendo ou implantando programas de sus-tentabilidade, respeitando os munícipes, organizando a sociedade civil e caminhando ao lado da tecnologia. Isso significa definir, como cidadãos, o nosso futuro – no Brasil, é claro!

EUGENIO SINGER, empresário e executivo, é formado em Engenharia Civil, mestre em Engenharia Nuclear e doutor em Recursos Hídricos e Meio Ambiente. Atualmente dirige o ABS Group Services no Brasil uma organização especializada em Gestão de Riscos para a Sustentabilidade. Consultor da Organização Panamericana de Saúde, da Cepal, da FAPESP e do BID, já ministrou cursos em mais de 20 países da América Latina e Caribe. Graduou-se na primeira turma do programa LEAD, da Fundação Rockefeller, para desenvolvimento de lideranças .É um “expert witness” da área ambiental na Câmara Internacional de Comércio – ICC.

fonte: Artigo publicado no Livro Mundo Sustentavel 2 de Andre Trigueiro da Editora Globo.

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Sobre o autor...

Eugenio Singer

Eugenio Singer é um empresário, consultor e um pensador na área de sustentabilidade.

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Eugenio Singer
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